PARAÍSO DO TUIUTI une Brasil e Cuba em desfile sobre a herança de Ifá e a resistência da diáspora
RIO DE JANEIRO – A tradicional escola de samba de São Cristóvão, Paraíso do Tuiuti, promete levar para a Marquês de Sapucaí uma conexão profunda entre as raízes africanas que moldaram as culturas do Brasil e de Cuba. Com o enredo intitulado “Lonã Ifá Lukumi”, desenvolvido pelo renomado carnavalesco Jack Vasconcelos, a agremiação busca traçar um paralelo entre os sistemas de crenças, os rituais e a resistência negra que unem essas duas nações separadas pelo oceano, mas conectadas pela ancestralidade.
A proposta do desfile para o próximo Carnaval foca na filosofia de Ifá e na tradição Lukumí (muito presente em Cuba e correlata ao Candomblé brasileiro). Segundo Jack Vasconcelos, o objetivo é mostrar que a diáspora africana criou “espelhos” em diferentes partes das Américas. Enquanto no Brasil temos a consolidação do Candomblé, em Cuba a Santería e a tradição Lukumí preservaram elementos idênticos de adoração aos Orixás, mesmo sob diferentes processos de colonização.
Conexões históricas e religiosas
A pesquisa da escola destaca as semelhanças nas práticas de oferendas (ebós), nas comidas sagradas e nos assentamentos de divindades. O enredo também aborda o impacto da escravidão em ambos os territórios — lembrando que Cuba e Brasil foram as duas últimas nações das Américas a abolir formalmente o regime escravocrata (Cuba em 1886 e o Brasil em 1888).
Para o Tuiuti, essa “identidade de espelho” entre os dois países será traduzida em alegorias que misturam o barroco cubano com a estética dos terreiros baianos e fluminenses.
Preparativos e novidades
Nos bastidores da Cidade do Samba, a escola já trabalha intensamente na confecção das fantasias. As últimas novidades indicam uma aposta em materiais orgânicos e artesanais, como cerâmica, contas e palha, para conferir um tom mais rústico e sagrado ao desfile.
A agremiação, que em 2025 homenageou Xica Manicongo (figura central da resistência trans e ancestral), mantém sua linha de enredos com forte carga social e política. Com o tema cubano-brasileiro, a expectativa é que o Tuiuti se consolide como uma das grandes forças estéticas do Grupo Especial, unindo o misticismo da religiosidade afro-caribenha ao vigor do samba carioca.
Os ensaios de rua já atraem milhares de componentes no Campo de São Cristóvão, onde o canto do samba-enredo — que evoca orações em iorubá e ritmos caribenhos — tem sido o ponto alto da preparação para a busca pelo título inédito.

































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