Rilla e startups de IA revivem polêmica ‘escala 996’ no coração de Nova York e do Vale do Silício
Enquanto o mundo discute a redução da jornada para quatro dias semanais, um movimento inverso ganha força no epicentro da inovação tecnológica. A Rilla, uma startup de inteligência artificial sediada em Nova York, tornou-se o rosto de um fenômeno que está importando para o Ocidente a exaustiva “escala 996” — o regime de trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana.
A prática, que totaliza 72 horas semanais, tem raízes nas gigantes chinesas como Alibaba e Tencent. Ironicamente, o modelo foi declarado ilegal pela Suprema Corte da China em 2021 por violar os direitos e a dignidade dos trabalhadores, mas encontrou terreno fértil na atual corrida armamentista pela supremacia da IA nos Estados Unidos.
A obsessão como requisito de contratação
Na Rilla, a transparência sobre a carga horária é usada como um filtro de seleção. O CEO da empresa, Sebastian Jimenez, defende abertamente que a obsessão não é apenas aceita, mas exigida.
- O Incentivo: A empresa oferece um bônus de US$ 1.500 mensais (cerca de R$ 7.500) para que funcionários morem a no máximo 15 minutos do escritório. O objetivo é eliminar o tempo de deslocamento para reinvesti-lo em produtividade.
- A Filosofia: Jimenez rejeita o mantra “trabalhe com inteligência, não com esforço”. Para ele, maximizar as horas de trabalho é a única forma de garantir o sucesso em um mercado onde “o vencedor leva tudo”.
- Perfil do Candidato: Os anúncios de vaga da Rilla alertam explicitamente: “Não se inscreva se não estiver animado em trabalhar 70 horas por semana”.
O contexto da corrida pela IA
A volta do “hustle culture” (cultura da agitação) não se restringe à Rilla. No Vale do Silício, outras startups e investidores, como Harry Stebbings, sugerem que o 996 pode ser até insuficiente diante da competição com empresas asiáticas. A lógica é que, com o avanço alucinante de modelos de linguagem e infraestrutura de IA, qualquer semana de 40 horas representa um atraso irrecuperável.
Riscos e críticas: O outro lado da moeda
Apesar do entusiasmo de fundadores e de uma parcela da Geração Z atraída pela promessa de riqueza rápida, especialistas em saúde e direito do trabalho soam o alarme:
- Saúde Mental e Física: Estudos da OMS indicam que jornadas superiores a 55 horas semanais aumentam drasticamente o risco de AVC e doenças cardíacas.
- Burnout como Risco de Investimento: Críticos como Amelia Miller, da Balderton Capital, afirmam que o esgotamento é uma das três principais causas de falha em startups, tornando a cultura 996 um “mau negócio” a longo prazo.
- Barreira à Diversidade: O modelo é criticado por excluir mulheres e cuidadores, cujas responsabilidades domésticas tornam fisicamente impossível a presença constante no escritório.

































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