Em um movimento histórico que redefine o cenário do comércio global, a União Europeia (UE) aprovou nesta sexta-feira (9 de janeiro de 2026) o acordo de livre-comércio com o Mercosul. A decisão foi tomada por maioria qualificada durante uma reunião de embaixadores em Bruxelas, superando a forte resistência liderada pela França e abrindo caminho para a criação de uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo.
Com o “sinal verde” dos 27 Estados-membros, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem viagem confirmada para Assunção, no Paraguai, na próxima segunda-feira (12), onde assinará formalmente o tratado com os líderes do bloco sul-americano (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).
O peso da decisão e as concessões
A aprovação ocorre em um momento de incertezas geopolíticas, impulsionada pelo temor europeu de perder espaço na América Latina para a influência da China e diante da postura protecionista sinalizada pelos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.
Para destravar os votos necessários — que exigiam o apoio de pelo menos 15 países representando 65% da população europeia —, a Comissão Europeia precisou ceder a pressões de nações como Itália e Romênia. O bloco europeu aprovou um pacote de salvaguardas que permite o monitoramento rigoroso das importações agrícolas. Caso o volume de produtos como carne, açúcar ou etanol do Mercosul cause distorções no mercado interno, a UE poderá acionar gatilhos de proteção para seus produtores locais.
Resistência e próximos passos
Apesar da vitória diplomática, o clima não é de unanimidade. França, Irlanda, Polônia e Hungria mantiveram seus votos contrários, citando riscos para o setor agropecuário europeu. O governo de Emmanuel Macron já sinalizou que levará a batalha para o Parlamento Europeu, onde o acordo ainda precisará ser ratificado.
Cerca de 150 eurodeputados (de um total de 720) ameaçam recorrer à Justiça para barrar a implementação do texto. No entanto, lideranças favoráveis ao tratado, como o chanceler alemão Friedrich Merz e o vice-presidente brasileiro Geraldo Alckmin, expressaram otimismo de que as etapas finais serão concluídas até o primeiro semestre de 2026.
O que muda com o acordo?
- Redução de tarifas: O tratado prevê a eliminação de tarifas de importação para mais de 90% dos produtos comercializados entre os blocos.
- Setores beneficiados: No Mercosul, a expectativa é de aumento massivo nas exportações de produtos agrícolas (soja, carnes, frutas). Para a Europa, o foco está na venda de automóveis, máquinas, vinhos e queijos com preços mais competitivos.
- Sustentabilidade: O texto inclui cláusulas sobre o cumprimento do Acordo de Paris e o combate ao desmatamento, pontos que foram centrais para convencer parlamentares europeus preocupados com a preservação da Amazônia.
A assinatura na segunda-feira em Assunção encerra um ciclo de tratativas iniciado em 1999, consolidando uma aliança estratégica que abrange um mercado de mais de 700 milhões de consumidores.







