Estudo do Insper aponta queda no Ideb de escolas em tempo integral e acende alerta na educação brasileira

​A grande aposta para elevar a qualidade do ensino médio no país enfrenta seu primeiro grande revés estatístico. Considerado por muitos especialistas como a “bala de prata” para solucionar os problemas estruturais do aprendizado no país, o modelo de escolas em tempo integral registrou uma redução inédita em seu desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

​Um estudo inédito do Centro de Evidências da Educação Integral do Insper, coordenado pelo economista Ricardo Paes de Barros, revelou que a histórica vantagem de desempenho que as escolas de jornada ampliada (com 35 horas semanais ou mais) tinham sobre as parciais encolheu 40% entre os anos de 2019 e 2023. Enquanto o Ideb geral do ensino médio regular e parcial registrou um leve crescimento, subindo de 4,12 para 4,21 pontos, as escolas 100% integrais viram sua nota recuar em 0,07 ponto — perda que chega a 0,15 ponto especificamente nos colégios com atendimento totalmente integral.

​O ritmo acelerado da expansão sob suspeita

​Especialistas classificam o resultado como inesperado e grave. A principal hipótese levantada pelo estudo para explicar o recuo foca no ritmo agressivo de expansão do formato nos últimos anos, impulsionado por fortes investimentos estaduais e federais.

​Entre 2019 e 2023, a proporção de colégios de ensino médio operando em tempo integral saltou de 13% para 33%. Estados como o Ceará (que saltou de 25% para 45% de cobertura), Piauí (de 23,4% para 43,7%) e Paraíba (de 30% para 48%) lideraram essa corrida pela ampliação de vagas.

​De acordo com Paes de Barros, a velocidade na abertura de novas matrículas pode ter comprometido o rigor pedagógico e a infraestrutura necessária para o funcionamento ideal desse formato. O modelo integral exige o dobro do investimento por estudante para manter os alunos conectados às atividades pedagógicas e aos projetos de vida por dois turnos, demandando um planejamento estrutural que pode não ter sido acompanhado com o devido cuidado em todas as redes de ensino.

​Os desafios pós-pandemia e a perda de eficiência

​Além do crescimento desordenado, os reflexos da pandemia de Covid-19 e a transição para os novos currículos escolares são apontados como agravantes na perda de fôlego do modelo. O estudo do Insper evidenciou que mesmo as unidades mais consolidadas — que já funcionavam em regime integral há pelo menos três anos — perderam 0,16 ponto em relação à tendência geral de crescimento do ensino médio.

​Embora institutos e organizações parceiras da educação integral, como o Instituto Natura e o Instituto Sonho Grande, reiterem que as escolas integrais ainda mantêm médias de aprovação e desempenho superiores (cerca de 7% acima da média nacional e forte impacto na redução de desigualdades socioeconômicas), o sinal amarelo foi formalmente aceso.

​O recuo no Ideb mostra que a mera extensão da carga horária nas salas de aula não garante, de forma isolada, o salto de qualidade esperado. Sem a manutenção rígida do modelo pedagógico diferenciado e de um forte suporte de infraestrutura, a principal vitrine da política pública educacional brasileira corre o risco de perder a sua eficiência.


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