As investigações da Polícia Federal (PF) na Operação Unha e Carne ganharam um novo capítulo com a descoberta de planilhas e manuscritos atribuídos ao contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como “Adilsinho”, apontado como um dos chefes da máfia dos cigarros e do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Segundo a corporação, os documentos revelam um detalhado “mapa de circulação de recursos” que soma mais de R$ 29 milhões em repasses a candidatos e agentes públicos ao longo das últimas quatro eleições.
As anotações contábeis foram apreendidas em fases recentes da operação e, de acordo com os investigadores, funcionavam como uma contabilidade paralela de grande escala. O esquema consistia no financiamento, formal ou informal, de campanhas políticas por parte da organização criminosa com o objetivo de obter a blindagem e a atuação de parlamentares e gestores públicos em defesa dos interesses do grupo após a posse.
Os principais citados e o funcionamento do esquema
Nas listas analisadas pela PF, constam os nomes de dezenas de agentes políticos de diferentes partidos e níveis de atuação. Entre as figuras de maior destaque estão o ex-governante fluminense Cláudio Castro (PL) — associado nas planilhas a uma suposta doação de R$ 3,2 milhões — e o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar.
Para viabilizar a circulação e a lavagem dos recursos de origem ilícita, a organização criminosa de Adilsinho utilizava uma rede de empresas, com destaque para gráficas e editoras contratadas de forma suspeita durante os períodos eleitorais. A PF aponta que os repasses visavam consolidar um braço político influente capaz de garantir a expansão dos negócios da contravenção e de redes de combustíveis associadas ao grupo.
Desdobramentos e prisões
Os achados das planilhas impulsionaram as etapas mais recentes da Operação Unha e Carne, que investiga crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.
- Rodrigo Bacellar: O ex-presidente da Alerj já se encontra sob custódia do sistema prisional e teve novos mandados expedidos no âmbito das investigações.
- Márcio Poncio: O pastor e influenciador digital também foi alvo de prisão por suspeita de atuar como elo financeiro na lavagem de capitais da máfia dos cigarros. Recentemente, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou sua transferência para prisão domiciliar com o monitoramento por tornozeleira eletrônica.
- Adilsinho: O bicheiro permanece detido enquanto a PF aprofunda a análise dos documentos e dos fluxos financeiros que movimentaram cerca de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
O posicionamento das defesas
Em resposta às investigações, a defesa de Cláudio Castro qualificou como “mentirosa qualquer ilação” de recebimento de vantagens indevidas por parte do ex-governador, argumentando que a mera citação de nomes em listas de terceiros não comprova qualquer irregularidade ou ato ilícito.
Os representantes de Rodrigo Bacellar e os advogados de Adilsinho também contestam as acusações, negando de forma veemente o pagamento ou recebimento de propinas e alegando a falta de provas que sustentem a tese de envolvimento político com o crime organizado. A defesa do pastor Márcio Poncio declarou, inicialmente, que aguardava o acesso integral aos autos para se manifestar detalhadamente.
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