O cenário macroeconômico e climático para o agronegócio brasileiro mudou drasticamente ao longo do ano, trazendo novos desafios para os produtores e pressões sobre o bolso do consumidor. Segundo projeções divulgadas pelo Rabobank, a safra 2026/27 deve ser marcada por restrições na oferta de proteína animal e por uma aceleração na inflação de alimentos. O alerta parte de Maurício Une, economista-chefe da instituição financeira, que aponta uma combinação severa de juros elevados, restrição fiscal governamental e riscos climáticos.
No início do ano, o mercado trabalhava com uma perspectiva otimista de cortes mais intensos nas taxas de juros e neutralidade climática. Contudo, a persistência de taxas de juros elevadas e a seletividade das instituições financeiras na concessão de crédito rural têm dificultado a renegociação de dívidas e o fluxo de caixa do produtor, que já vinha operando com margens estreitas. Além disso, a recente apresentação do Plano Safra foi recebida com ressalvas pelo setor, que aponta lacunas substanciais em áreas como o seguro rural voltado para quebras climáticas.
O fator climático, inclusive, é um dos principais catalisadores de incerteza. Meteorologistas e analistas indicam o retorno de um fenômeno El Niño considerado forte a partir de novembro, o que deve penalizar o desenvolvimento do plantio de grãos e atrasar o milho de segunda safra no ciclo 2026/27. Esse encarecimento ou escassez na base da alimentação animal reflete diretamente na pecuária, desestimulando a produção e reduzindo a oferta de carne no mercado.
De acordo com a análise de Une, o comércio exterior não terá forças para atenuar as dificuldades domésticas. Como cerca de 70% a 80% da produção agropecuária brasileira é direcionada ao consumo interno, o avanço das exportações não conseguirá blindar o mercado de uma retração na demanda das famílias.
O reflexo direto desse estrangulamento produtivo será sentido nas gôndolas dos supermercados. As estimativas do Rabobank indicam que a inflação de alimentos consumidos no domicílio deve encerrar o ano com taxa de 6,84%. O pico dessa pressão inflacionária está projetado para fevereiro de 2027, momento em que o índice pode atingir 7,67%, iniciando uma trajetória de acomodação somente nos meses posteriores para fechar aquele ano na casa de 4,36%.
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