Brasília — O Brasil deve enfrentar ao menos seis novas ondas de calor de grande intensidade até o encerramento deste ano. A projeção foi divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e reforçada por órgãos de monitoramento internacionais, como a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), que apontam a possibilidade do surgimento de um fenômeno de proporções extremas — apelidado de “Super El Niño”.
Especialistas explicam que a soma entre o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial e a temperatura de base já elevada do planeta cria um cenário favorável para a retenção de massas de ar quente sobre o território nacional por longos períodos. Pela definição do órgão técnico, uma onda de calor se configura quando as temperaturas, tanto máximas quanto mínimas, permanecem significativamente acima da média climatológica por pelo menos três dias consecutivos.
Mudança histórica no padrão do calor
A pesquisadora Mabel Calim Costa, do Cemaden, destaca que o comportamento dos eventos climáticos no país passou por transformações profundas nas últimas décadas. O levantamento histórico do órgão indica uma escalada contínua na quantidade e amplitude desses episódios:
- Anos 1980 e 1990: Os eventos eram pontuais e focalizados em regiões específicas, registrando em média três a quatro episódios ao ano.
- A partir de 2010: As ondas de calor tornaram-se mais frequentes e abrangentes, culminando no ciclo de 2023–2024, quando o país atingiu o recorde de nove ondas de calor.
- Projeção atual: A estimativa de seis eventos até o final do ano é considerada uma linha de base conservadora. Com o aquecimento do oceano em patamares elevados, o número total pode superar novamente a média histórica.
Outra constatação preocupante dos meteorologistas é o alcance das áreas afetadas. Se no passado o calor extremo ficava restrito a trechos isolados do interior, hoje os sistemas de alta pressão atuam como “tampões atmosféricos” que cobrem quase todas as regiões do país simultaneamente, podendo elevar as temperaturas locais em até 3 °C acima do esperado para o período.
Seca, risco de incêndios e impactos na economia
Os desdobramentos das altas temperaturas contínuas vão muito além do desconforto térmico da população. De acordo com os dados apresentados pelo meteorologista Marcelo Seluchi e pela equipe do Cemaden, os desdobramentos envolvem riscos ambientais e econômicos diretos:
- Aumento dos focos de fogo: Mais de 35% do território nacional e cerca de 560 municípios encontram-se em situação de alerta alto para risco de incêndio. O corredor entre a Amazônia e o Pantanal surge como uma das zonas mais vulneráveis.
- Aprofundamento da estiagem: O excesso de insolação acelera o processo de evapotranspiração do solo e da vegetação. Cerca de 157 municípios já enfrentam condições de seca severa, com maior concentração de cidades nos estados de Tocantins e Bahia.
- Pressão sobre a inflação: Estudos de impacto econômico vinculados ao clima indicam que episódios fortes de El Niño podem encarecer os alimentos in natura em até 19,9% no prazo de seis meses, afetando diretamente o custo da alimentação no domicílio.
Diante das projeções, o Governo Federal mantém equipes de resposta e milhares de brigadistas em campo para atuar na contenção de incêndios e no mitigamento dos danos nas áreas mais secas das Regiões Norte e Nordeste.
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