Enquanto o Brasil debate o aumento da jornada de trabalho para 48 horas semanais, um grupo de brasileiros que trocou o calor tropical pelo frio nórdico revela um segredo transformador: na Finlândia, país que lidera o ranking global de felicidade desde 2016, produtividade e bem-estar coexistem sem culpa.
“Cheguei com a mentalidade de que tempo livre era ‘ociosidade’, mas aqui aprendi que descansar é um direito, não um privilégio”, conta Ana Lúcia, ex-executiva de São Paulo que hoje gerencia projetos em Helsinque com horários rígidos — das 8h às 16h. “No início, achava estranho sair do escritório com sol ainda alto. Hoje, cultivo horta, passo tardes com meus filhos e descobri que tempo de qualidade é combustível para a criatividade.”
A filosofia finlandesa desafia mitos: jornadas de trabalho mais curtas (média de 36,2h semanais, segundo a OCDE), licenças-parentais de até 14 meses e cinco semanas de férias anuais não são “mimos”, mas pilares de uma sociedade que entende o ócio como parte essencial da produtividade. Para Tiago Ribeiro, programador de Curitiba radicado em Turku, a mudança foi cultural: “No Brasil, trabalhar até tarde era ‘virtude’. Aqui, se você fica além do horário, os colegas questionam: ‘O que há de errado? Precisa de ajuda?’”.
O contraste é numérico: enquanto 33% dos brasileiros trabalham mais de 40h semanais (IBGE), a Finlândia investe em políticas como horários flexíveis, apoio a pais e mães (incluindo creches subsidiadas) e até incentivos para pausas ao ar livre — prática comprovada por estudos para reduzir o estresse. “Aprendi que eficiência não se mede por horas na cadeira, mas por resultados e saúde mental”, reflete Mariana Castro, professora que trocou o Rio de Janeiro por Tampere.
Mas qual o preço do equilíbrio? Os entrevistados admitem desafios: adaptar-se à escuridão do inverno, à língua complexa e à distância da família. Porém, unanimemente afirmam: a sensação de ter controle sobre o próprio tempo — seja para um café com amigos, uma sauna noturna ou simplesmente “não fazer nada” — redefiniu seu conceito de sucesso.
Em um mundo obcecado pela cultura do “sempre ocupado”, a lição finlandesa ecoa como revolução silenciosa: talvez a verdadeira riqueza não esteja no salário ou no cargo, mas em quantas horas por dia você realmente pertence a si mesmo. Para esses brasileiros, a felicidade, afinal, tinha endereço — e horário de expediente.