COREIA DO NORTE, Nigéria e o avanço da “perseguição polida” no Ocidente: os novos rostos da intolerância religiosa

A liberdade de crença vive um de seus momentos mais críticos no século XXI. De acordo com os relatórios mais recentes de 2025 e as projeções para 2026 da Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) e da organização Portas Abertas, mais de 5,4 bilhões de pessoas — cerca de dois terços da humanidade — vivem hoje em países onde a liberdade religiosa é gravemente violada ou inexistente.

​O cenário atual revela que a perseguição não é movida apenas pelo fanatismo ideológico, mas também por uma intrincada rede de lucro, controle social e busca desenfreada por poder. Se por um lado o sangue continua a ser derramado em regiões de conflito explícito, por outro, surge uma modalidade silenciosa e estratégica de repressão nas democracias modernas.

​O Triângulo da Perseguição: Fanatismo, Lucro e Poder

​Historicamente associada a divergências teológicas, a intolerância contemporânea tem causas muito mais pragmáticas:

  1. Fanatismo como Ferramenta: Grupos extremistas e regimes totalitários utilizam a fé como um catalisador de ódio para unificar bases e desumanizar o “outro”, facilitando o controle populacional.
  2. Lucro e Crime Organizado: Na África Subsaariana e na América Latina, a fé tornou-se alvo do crime organizado. O sequestro de líderes religiosos para pedido de resgate e a extorsão de comunidades de fé transformaram a religião em um “negócio” rentável para milícias e cartéis.
  3. Manutenção do Poder: Em países como a Coreia do Norte (que lidera o ranking de perseguição em 2026) e a China, qualquer lealdade que não seja ao Estado é vista como traição. O controle da fé é, em última análise, o controle do pensamento.

​O Mapa da Crise em 2025/2026

​Os dados recém-divulgados trazem alertas vermelhos em diferentes continentes:

  • África Subsaariana (O Epicentro da Violência): A Nigéria continua sendo o país com o maior número de mortes de cristãos no mundo. Em 2025, o número de assassinatos por motivos religiosos voltou a crescer, atingindo a média de 13 mortes por dia.
  • Oriente Médio e Ásia: A Síria saltou para o grupo de perseguição “extrema” após a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, que deixou um vácuo de poder ocupado por milícias radicais. Na Índia, o nacionalismo religioso tem isolado minorias de forma sistemática.
  • O Fenômeno da “Perseguição Polida”: O relatório da ACN destaca um crescimento alarmante de incidentes no Ocidente. Na França, registraram-se mil ataques a templos em um ano; nos Estados Unidos, o vandalismo contra igrejas subiu drasticamente. O termo descreve a tentativa de silenciar a fé no espaço público através de pressões culturais e jurídicas, muitas vezes sob o disfarce de neutralidade estatal.

​Vigilância e Tecnologia

​Um dos pontos mais sombrios da perseguição atual é o uso da tecnologia de ponta. Governos autoritários agora utilizam reconhecimento facial, biometria e monitoramento de redes sociais para identificar e punir cidadãos que participam de cultos clandestinos ou expressam opiniões religiosas dissidentes. No Paquistão e na China, a vigilância digital tornou-se a nova muralha contra a liberdade de consciência.

​Conclusão

​A perseguição religiosa no mundo moderno deixou de ser um resquício do passado para se tornar uma estratégia política e econômica sofisticada. Seja através do fuzil de um extremista na Nigéria ou da caneta de um burocrata em uma democracia ocidental, o alvo é o mesmo: a dignidade humana de viver de acordo com a própria consciência. Como aponta o Cardeal Pietro Parolin no novo relatório da ACN, a liberdade religiosa não é um privilégio concedido por governos, mas a base fundamental para a paz e a justiça em qualquer sociedade.

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