WASHINGTON – Em um movimento estratégico para combater a persistente alta nos preços dos alimentos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma diretiva que eleva drasticamente a cota de importação de carne bovina da Argentina. A medida, oficializada na última sexta-feira (6), expande o limite para 100 mil toneladas em 2026, representando um marco na relação bilateral com o governo de Javier Milei.
O acordo ocorre em um momento de crise estrutural na pecuária americana. O rebanho bovino dos EUA atingiu seu menor nível em 75 anos, reflexo de secas severas que assolam estados produtores como Texas e Nebraska, além de incêndios florestais e restrições sanitárias ao gado mexicano. Com a oferta doméstica limitada, o preço da carne moída — item essencial na dieta americana e na fabricação de hambúrgueres — atingiu recordes históricos, pressionando a popularidade do governo.
O “Fator Milei” e o xadrez comercial
A decisão não é apenas econômica, mas profundamente política. Ao destinar exclusivamente à Argentina um volume adicional de 80 mil toneladas de “aparas magras” (cortes usados para compor a carne moída), Trump isola competidores como o Brasil, que opera sob uma cota restrita de aproximadamente 52 mil toneladas.
Em contrapartida ao acesso privilegiado ao mercado americano, o governo Milei cedeu em frentes importantes:
- Abertura de mercado: Eliminação de tarifas para 1.675 produtos americanos e taxas sobre máquinas e dispositivos médicos.
- Setores estratégicos: Redução tarifária para autopeças e concessão de cotas para veículos dos EUA.
- Apoio financeiro: O acordo abre caminho para investimentos americanos em energia, infraestrutura e minerais críticos por meio do EXIM Bank.
Reações e controvérsias
Embora celebrada em Buenos Aires como a volta da Argentina ao “mundo ocidental”, a medida enfrenta forte resistência interna nos EUA. Associações de pecuaristas americanos e uma coalizão de 27 ex-líderes do setor agrícola enviaram uma carta à Casa Branca alertando que o aumento da concorrência externa prejudica os produtores locais que já sofrem com custos de insumos elevados.
Do lado sul-americano, o governo brasileiro observa com cautela. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou que o acordo bilateral será submetido à revisão do Mercosul para verificar se as concessões argentinas respeitam a Tarifa Externa Comum (TEC) e as normas do bloco.
Especialistas apontam que, embora a entrada de carne argentina alivie a oferta no curto prazo, a dependência de importações para controlar preços domésticos pode manter Trump sob fogo cruzado entre os consumidores, que exigem comida barata, e a sua base rural, que clama por protecionismo.




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