O mercado editorial brasileiro encerrou o último ciclo com motivos para um otimismo cauteloso. Segundo dados da pesquisa “Panorama do Consumo de Livros no Brasil”, divulgada nesta quinta-feira (26) pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData, o número de consumidores de livros no país subiu para 18% da população adulta em 2025. O índice representa a entrada de cerca de três milhões de novos compradores no mercado, consolidando uma tendência de recuperação após anos de estagnação.
A pesquisa, que ouviu 16 mil pessoas em todas as regiões do país, aponta que o perfil desse novo consumidor é majoritariamente feminino e jovem. Um dos destaques mais significativos do levantamento é o protagonismo das mulheres pretas e pardas, que hoje representam 30% do total de consumidores de livros no Brasil. De acordo com a presidente da CBL, Sevani Matos, o fortalecimento de comunidades virtuais e o papel de criadores de conteúdo em redes sociais como o TikTok foram fundamentais para essa expansão.
O paradoxo do mercado: faturamento alto e leitura em queda
Apesar do aumento no número de compradores, o setor enfrenta o que especialistas chamam de “paradoxo brasileiro”. Dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) indicam que, enquanto o faturamento e o volume de vendas cresceram — superando a marca de R$ 3 bilhões em 2025 —, a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” alerta para uma retração no hábito de leitura profunda.
Muitos desses novos consumidores são atraídos por livros de entretenimento, ficção adulta e fenômenos de nicho, como os livros de colorir e títulos impulsionados por influenciadores. “O livro está sendo mais comprado, mas o desafio é transformar esse comprador em um leitor assíduo, combatendo a concorrência severa das telas e do tempo escasso na vida moderna”, analisa o presidente do SNEL, Dante Cid.
Desafios e perspectivas para 2026
Mesmo com o crescimento, o fator econômico continua sendo a principal barreira. Cerca de 35 milhões de brasileiros declararam ter desistido de comprar livros no último ano devido ao preço. A pirataria também segue no radar das entidades; para Mariana Bueno, economista da Nielsen, os downloads ilegais indicam uma “demanda reprimida” que o mercado precisa aprender a converter por meio de políticas de acesso e preços mais competitivos.
Para o restante de 2026, a expectativa é de manutenção do ritmo de vendas, embora eventos como a Copa do Mundo e as eleições costumem desviar o foco do orçamento das famílias. A estratégia das editoras agora se volta para a personalização e o fortalecimento das livrarias de rua, que têm se mostrado redutos de resistência cultural contra as grandes plataformas de e-commerce.
A mensagem do setor é clara: para sustentar o crescimento de 18%, é necessário investir não apenas na venda, mas na formação de bibliotecas e políticas públicas que garantam que o livro deixe de ser apenas um produto e se torne, efetivamente, um hábito nacional.




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