A sessão da Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), realizada na última terça-feira (25/03/2026), tornou-se centro de um intenso debate jurídico e social após declarações do desembargador José Reginaldo Costa. Durante o julgamento de um recurso sobre pensão alimentícia para uma mulher vítima de violência doméstica, o magistrado manifestou-se contra a ampliação do benefício, associando o pedido a uma suposta “ociosidade” generalizada no país.
O caso e as declarações
O processo em tela envolvia uma moradora de Guanambi, no interior da Bahia, que buscava o aumento do valor da pensão paga pelo ex-marido e a retirada de um prazo fixo para o encerramento do auxílio. Ao votar contra a proposta de ampliar o benefício para três salários mínimos, o desembargador José Reginaldo Costa afirmou que o valor poderia desestimular a busca por emprego.
”Nosso país atravessa uma situação muito parecida. Com essas bolsas de tudo que tem por aí, ninguém quer mais trabalhar. No interior, se você procurar uma diarista não encontra”, declarou o magistrado durante a sessão gravada.
Costa chegou a comparar o montante total das pensões (incluindo a do filho do casal) ao salário do prefeito da cidade, sugerindo que a vítima poderia “se acomodar” caso recebesse o valor solicitado.
Repercussão e contraponto de gênero
As falas geraram reação imediata de outros membros do colegiado. Desembargadoras presentes ressaltaram que o caso não deveria ser analisado sob uma ótica puramente financeira, mas sim através da perspectiva de gênero, conforme diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Argumentou-se que a vítima sofreu anos de violência e encontra-se em situação de vulnerabilidade extrema, muitas vezes impedida de se inserir no mercado de trabalho justamente pelo ciclo de abusos e traumas psicológicos sofridos.
Decisão final e desdobramentos
Apesar das críticas do desembargador José Reginaldo, a maioria do colegiado decidiu por:
- Ampliar a pensão para o valor de três salários mínimos.
- Retirar o prazo fixo de 12 meses, garantindo a manutenção do auxílio enquanto persistir a necessidade comprovada.
O episódio ocorre em um momento de endurecimento das regras de fiscalização da magistratura pelo CNJ. Recentemente, em fevereiro de 2026, o conselho aplicou sanções a magistrados por baixa produtividade e condutas inadequadas, o que coloca as declarações de Costa sob a lupa de órgãos de controle que monitoram o cumprimento de protocolos de julgamento com perspectiva de gênero.




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