Governo publica MP que endurece regras do frete e mira grandes empresas para conter crise com caminhoneiros

​O Governo Federal, por meio de uma Medida Provisória (MP) publicada nesta quinta-feira (19 de março de 2026), endureceu as regras para o cumprimento do piso mínimo do frete rodoviário. A medida surge como uma resposta direta à pressão de transportadores autônomos e à ameaça de uma paralisação nacional, motivada pela escalada nos preços do diesel em decorrência da instabilidade no mercado internacional de petróleo.

​O novo pacote regulatório, anunciado pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, amplia significativamente o poder de fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e introduz punições severas para quem desrespeitar os valores estabelecidos na tabela.

​Multas milionárias e bloqueio de operações

​As novas diretrizes preveem que empresas que pagarem valores abaixo do piso mínimo estarão sujeitas a multas que podem variar de R$ 1 milhão a R$ 10 milhões por operação. Mais do que o impacto financeiro, o governo introduziu a sanção de “suspensão cautelar” do registro no RNTRC (Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas).

​Na prática, empresas reincidentes poderão ser impedidas de contratar novos fretes e, em casos extremos, ter sua autorização para operar cancelada por até dois anos. Segundo o governo, o objetivo é isolar empresas que utilizam o descumprimento da lei como “modelo de negócio”.

​Gigantes do setor sob os holofotes

​Durante o anúncio, o Ministério dos Transportes expôs dados de fiscalizações recentes que apontam irregularidades em cerca de 20% das operações. Grupos de grande relevância no mercado, como BRF, Vibra Energia, Raízen, Ambev e Cargill, foram citados entre os principais autuados em volume financeiro de penalidades ou número de ocorrências nos últimos meses.

​As empresas alegam dificuldades na composição dos custos e defendem que a legislação gera insegurança jurídica, especialmente enquanto o tema aguarda uma definição final no Supremo Tribunal Federal (STF).

​Impacto direto no bolso do consumidor

​Analistas e entidades do agronegócio, como a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), alertam que o endurecimento das regras e o recente reajuste da tabela da ANTT — que variou entre 4,82% e 7% para refletir a alta do diesel — terão um efeito cascata nos preços.

​Como o modal rodoviário é responsável por cerca de 65% a 75% da movimentação de cargas no país, o custo logístico mais elevado deve ser repassado rapidamente para as prateleiras dos supermercados. Itens básicos como grãos, carnes e laticínios são os mais sensíveis a essa variação, elevando o alerta para a inflação de alimentos nos próximos meses.

​Aposta na tecnologia e no diálogo político

​Para garantir a efetividade das punições, o governo tornará obrigatório o registro detalhado de todas as operações via CIOT (Código Identificador da Operação de Transporte), permitindo um cruzamento de dados automatizado entre o que é pago e o que determina a tabela.

​Simultaneamente, o governo negocia com estados uma redução temporária do ICMS sobre o diesel até o final de maio de 2026, tentando equilibrar a conta entre a manutenção da renda dos caminhoneiros e o controle da inflação, enquanto busca desmobilizar o movimento grevista que ganha força nos bastidores.

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