As facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) consolidaram, nos primeiros meses de 2026, uma mudança estratégica em suas operações no Amazonas. O que antes era um território focado majoritariamente no escoamento de entorpecentes pela rota do Rio Solimões tornou-se um ecossistema de “narco-ecologia”, onde o garimpo ilegal, a extração de madeira e a grilagem de terras são as novas engrenagens para o financiamento do crime organizado.
Dados recentes indicam que o crime organizado já marca presença em cerca de 45% dos municípios da Amazônia Legal. No Amazonas, essa interiorização reflete-se em um aumento expressivo da violência e das apreensões. No primeiro trimestre de 2026, as forças de segurança do estado apreenderam 13,4 toneladas de drogas, um salto de 49% em comparação ao mesmo período de 2025, evidenciando que a máquina logística das facções está operando em capacidade máxima para sustentar suas frentes ambientais.
A nova governança das facções no interior
De acordo com estudos apresentados no final de 2025 e atualizados em 2026, o Comando Vermelho implementou um sistema de “franquias” e “taxas” sobre atividades ilegais na floresta.
- Mensalidade do Garimpo: Em regiões próximas ao Amazonas e Mato Grosso, a facção tornou obrigatório o pagamento de taxas para o funcionamento de balsas e dragas de extração mineral.
- Controle Logístico: Pistas de pouso clandestinas, antes exclusivas para aviões do tráfico, agora servem para o escoamento de ouro e madeira nobre, otimizando os custos das organizações.
- Disputa Territorial: O sul do Amazonas e cidades como Tabatinga e Coari tornaram-se pontos de atrito entre o CV e dissidências aliadas ao PCC, como a Tropa do Castelar, elevando os índices de homicídios no interior.
Ofensiva estatal: Operação Tamoiotatá 6
Para tentar frear o avanço, o governo federal e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) intensificaram as ações. Em março de 2026, a Operação Tamoiotatá 6 aplicou mais de R$ 28 milhões em multas apenas no sul do estado. A fiscalização embargou uma área equivalente a 3,2 mil campos de futebol, buscando desarticular o braço financeiro das facções que utiliza a pecuária ilegal e a grilagem para lavagem de dinheiro.
“A dinâmica atual não é mais de um crime isolado. O tráfico de drogas, a extração de ouro e a destruição da floresta operam sob o mesmo comando logístico, criando um ecossistema de ilegalidades difícil de romper apenas com patrulhamento convencional”, aponta o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia”.
Desafios para 2026
Apesar da queda de quase 99% no garimpo ilegal em áreas específicas como a Terra Indígena Yanomami, a criminalidade migrou para novas frentes. O uso de criptomoedas para lavar o lucro do ouro “sujo” e a cooptação de populações ribeirinhas vulneráveis permanecem como os principais obstáculos para as autoridades brasileiras, que tentam retomar a soberania do território amazônico diante do poderio bélico e financeiro dos cartéis nacionais.




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