O adjetivo “transparente” tem frequentado com insistência as análises de colunistas e observadores internacionais para descrever a postura de Donald Trump em relação à Venezuela. Diante de décadas em que os Estados Unidos utilizaram pretextos como “defesa da democracia” e “direitos humanos” para justificar intervenções, Trump inovou ao admitir abertamente o interesse direto nas reservas petrolíferas do país vizinho. No entanto, o que muitos chamam de transparência, críticos e fatos recentes apontam como um comportamento puramente descarado, focado em uma agenda de controle que ignora as instituições venezuelanas.
A estratégia do “América Primeiro” em Caracas
Desde o início de 2026, a política externa de Trump para a Venezuela tomou contornos definitivos. Após a captura e deposição de Nicolás Maduro por forças ligadas aos interesses americanos, o presidente dos EUA assinou ordens executivas para “proteger” as receitas petrolíferas de Caracas, assegurando que o fluxo de energia beneficie empresas americanas e aliados estratégicos.
Diferente de administrações anteriores, Trump não tem feito questão de estabelecer prazos para eleições ou de fortalecer a liderança de figuras da oposição tradicional, como María Corina Machado. Pelo contrário, o governo americano surpreendeu ao adotar um pragmatismo agressivo, mantendo canais abertos com figuras do regime anterior, como a presidente interina Delcy Rodríguez, para garantir a continuidade operacional da extração de óleo.
Os pontos cegos da “transparência”
A suposta sinceridade de Trump ao dizer que “queria o petróleo” mascara a falta de informações sobre o custo humano e legal das operações militares. Especialistas apontam que a transparência real exigiria dados que o governo americano se recusa a fornecer:
- Operações no Caribe: Detalhes sobre o bombardeio de embarcações e as condições em que civis foram mortos permanecem sob sigilo.
- Narrativa do Narcotráfico: Embora Washington justifique ações militares com o combate ao cartel “Los Soles”, relatórios de inteligência e analistas internacionais questionam a relevância da Venezuela como rota principal, comparada ao México ou Colômbia.
- Governança: Não há, na agenda atual de Mar-a-Lago, planos para a redução da corrupção ou melhoria dos indicadores sociais que desabaram nos últimos anos.
“Trump não é transparente; ele é descarado como só os autoritários podem ser. Declarar que o objetivo é o petróleo é um tapa na face dos venezuelanos que esperavam por uma restauração democrática”, afirma a análise da Agência Pública sobre o tema.
Repercussões regionais
O impacto dessa postura já é sentido no Brasil. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, através do Itamaraty, já manifestou rejeição à ideia de um “protetorado” na Venezuela, alertando que a divisão do mundo em esferas de influência pura e simples fere o direito internacional. Enquanto isso, o Secretário de Estado, Marco Rubio, mantém a pressão para que o petróleo venezuelano não seja comercializado com adversários dos EUA, como China e Irã, sob pena de sanções secundárias.
O cenário para 2026 indica que a “transparência” de Trump nada mais é do que a exposição de uma política de força onde a soberania nacional é tratada como um recurso estratégico e negociável, deixando a democracia em um segundo plano irrelevante.




