O Palácio do Planalto decidiu elevar o tom e transformar o fim da escala 6×1 na “prioridade zero” da agenda legislativa para 2026. Sem uma base sólida de votos no Congresso Nacional para aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva articula uma ofensiva que combina diálogo institucional e pressão popular direta, visando emparedar parlamentares indecisos em um ano de eleições.
A estratégia das ruas e o calendário político
Com o apoio de figuras centrais como os deputados Erika Hilton (PSOL-SP) e Guilherme Boulos (PSOL-SP) — este último agora à frente da Secretaria-Geral da Presidência —, o governo planeja uma série de mobilizações populares. O objetivo é criar um clima de “clamor social” que torne politicamente custoso para deputados e senadores votarem contra a medida.
Estão previstos grandes atos para o período pós-Carnaval e, especialmente, durante as comemorações do Dia do Trabalhador, em 1º de maio. O diagnóstico do Planalto é que, por ser uma pauta com aprovação superior a 70% em pesquisas de opinião, ela tem o potencial de furar a “bolha de esquerda” e dialogar com o eleitor moderado e de classe média, tornando-se o principal trunfo eleitoral para o projeto de reeleição de Lula.
O tabuleiro no Congresso: Motta e Paim
Apesar do otimismo popular, a realidade numérica no Congresso é o maior desafio. Atualmente, o governo trabalha em duas frentes:
- Na Câmara: O governo busca uma aproximação estratégica com o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). O objetivo é convencê-lo a despachar a PEC de Erika Hilton para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Há uma percepção de que Motta, ao contrário de seu antecessor Arthur Lira, pode estar mais aberto a pautas de apelo social para consolidar sua liderança.
- No Senado: A tramitação parece mais célere. A PEC 148/2025, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), já avançou na CCJ e aguarda votação em plenário. O texto propõe uma redução gradual: a jornada cairia imediatamente para 40 horas e, após isso, seria reduzida em uma hora por ano até atingir o limite de 36 horas semanais (escala 5×2 ou 4×3).
Reação do setor produtivo
A ofensiva governista, no entanto, enfrenta forte resistência da elite empresarial e de setores do centrão. Confederações patronais alertam para riscos de inflação, aumento do custo operacional e possíveis demissões em massa, especialmente nos setores de comércio e serviços.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, rebate as críticas afirmando que a tecnologia e a produtividade brasileira permitem a redução sem cortes salariais. “É uma questão de dignidade humana e de saúde mental”, reforçou a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, destacando que a mudança beneficia especialmente as mulheres, que enfrentam a dupla jornada.
Com as eleições no horizonte, o governo Lula joga suas fichas na mobilização social como o único combustível capaz de acelerar as engrenagens de um Congresso tradicionalmente resistente a mudanças nas leis trabalhistas.




