Crise no IBGE: coordenadores temem novas retaliações após demissão de Rebeca Palis

​A tensão interna no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atingiu um novo ápice nesta última semana de janeiro de 2026. O clima de instabilidade, que se arrasta desde o início da gestão de Marcio Pochmann, ganhou contornos dramáticos com a exoneração de Rebeca Palis, respeitada coordenadora de Contas Nacionais e responsável pelo cálculo do PIB brasileiro. Em um gesto de solidariedade e protesto, seu vice, Cristiano Martins, também pediu desligamento do cargo na última sexta-feira (23).

​De acordo com fontes internas e relatos de entidades como a ASSIBGE (Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE), a saída de Palis é vista pelo corpo técnico não como uma substituição administrativa comum, mas como uma “retaliação política”. O temor generalizado entre gerentes e coordenadores é de que uma “caça às bruxas” esteja em curso contra servidores que questionam as mudanças estruturais propostas pela presidência, especialmente a criação da polêmica Fundação IBGE+.

​Os pontos centrais do conflito

​A crise se baseia em três pilares principais que têm colocado a diretoria e os servidores em rota de colisão:

  1. Fundação IBGE+: Apelidada por críticos de “IBGE paralelo”, a fundação de direito privado foi criada para captar recursos externos. Servidores temem que isso comprometa a autonomia técnica do órgão e abra margem para a privatização de dados estratégicos.
  2. Mudança no Estatuto: A proposta de um novo estatuto, que altera o organograma e o regime de trabalho (com o fim do teletrabalho total e a migração para o presencial), é vista como autoritária por não ter passado por um amplo debate com o corpo técnico.
  3. Denúncias de Perseguição: O sindicato ASSIBGE-SN protocolou recentemente ofícios solicitando reuniões emergenciais para tratar de denúncias de retaliação em diversas áreas, incluindo a Gerência de Biblioteca e a Comunicação Social, onde mudanças repentinas de chefia foram interpretadas como punições por discordâncias ideológicas ou metodológicas.

​A posição da gestão

​O presidente Marcio Pochmann tem negado a existência de uma crise institucional. Em declarações recentes, ele defende que as mudanças são necessárias para modernizar o instituto e adaptá-lo ao Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (Singed). Segundo Pochmann, as críticas são “normais em um regime democrático” e o instituto segue focado no Plano de Trabalho 2026, que visa ampliar a produção de dados em tempo real.

​Impacto na credibilidade

​Especialistas e ex-diretores do órgão alertam que a saída de quadros técnicos qualificados como Rebeca Palis pode abalar a confiança do mercado e de organismos internacionais nas estatísticas brasileiras. O PIB é o termômetro principal da economia e qualquer percepção de interferência política em seu cálculo pode elevar a incerteza econômica no país.

​Até o momento, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) não interferiu diretamente no conflito, mantendo a autonomia da presidência do IBGE para as nomeações, mas o sindicato promete intensificar as mobilizações e levar as denúncias de “gestão autoritária” ao Congresso Nacional.

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