Em um cenário global onde grandes potências econômicas iniciam um movimento de reestatização de serviços estratégicos, o Paraná caminha na contramão. Após a conclusão do processo que retirou do Estado o controle acionário da Copel, o governo de Ratinho Júnior (PSD) intensifica os esforços para privatizar a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar). No entanto, o processo enfrenta uma barreira institucional decisiva: o Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR).
Nesta última quarta-feira (28 de janeiro de 2026), o conselheiro Fábio Camargo voltou a suspender o leilão da estatal, que estava previsto para ocorrer na B3. A decisão cautelar fundamenta-se no risco iminente à segurança pública e à soberania de dados. Camargo argumenta que a transferência de sistemas que manipulam informações sigilosas — incluindo dados de segurança, saúde e educação — para o controle da iniciativa privada fere a Constituição e coloca em xeque a privacidade dos paranaenses.
O “Coração Digital” em Disputa
A Celepar não é apenas uma empresa de processamento de dados; ela é o “cérebro” da administração estadual, gerindo mais de 114 sistemas críticos de segurança pública. “Não podemos permitir que uma empresa estratégica seja entregue ao mercado sem transparência. Proteger esses dados é proteger o nosso povo”, afirmou o deputado Arilson Chiorato (PT), um dos principais articuladores da resistência no legislativo.
O governo estadual, por outro lado, defende que a privatização trará modernização e que a gestão dos dados permaneceria sob a tutela do Estado, sendo a empresa privada apenas uma “executora técnica”. Contudo, críticos e órgãos de controle alertam para a dependência tecnológica e o risco de uso comercial de bases de dados sensíveis, o que violaria a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Paraná na Contramão do Mundo
Enquanto o Paraná avança com a agenda de desestatização, o cenário internacional mostra sinais de fadiga do modelo privado em setores essenciais. Dados recentes indicam que cidades em países como Alemanha, França e Reino Unido têm retomado o controle público sobre serviços de energia, água e transporte após experiências negativas com aumentos de tarifas e queda na qualidade.
Nos Estados Unidos, entre 2000 e o período recente, dezenas de serviços foram reestatizados após o reconhecimento de que a lógica do lucro nem sempre é compatível com a universalização e a segurança do serviço público.
Conflito Interno no TCE
O impasse na venda da Celepar também revela um racha dentro do próprio Tribunal de Contas. Dias antes da suspensão determinada por Fábio Camargo, o conselheiro Durval Amaral havia liberado a continuidade do certame. A disputa jurídica agora deve ser resolvida pelo Tribunal Pleno, que analisará se a pressa do governo em “bater o martelo” na B3 justifica os riscos apontados à soberania digital do estado.
Com a Copel já operando sob controle privado e a Compagás na mira, a Celepar tornou-se o principal campo de batalha para aqueles que defendem que patrimônio estratégico e dados dos cidadãos não devem ser tratados como mercadoria.




