O Carnaval de 2026 na Marquês de Sapucaí será palco de uma reparação histórica e espiritual. A Estácio de Sá, uma das escolas mais tradicionais do Rio, anunciou que levará para a avenida o enredo “Tata Tancredo – O Papa Negro no Terreiro do Estácio”. A homenagem resgata a vida de Tancredo da Silva Pinto (1904-1979), o homem que transformou a paisagem cultural do Brasil ao idealizar as celebrações de Iemanjá e o uso de roupas brancas no Réveillon de Copacabana.
O arquiteto da fé e do branco
Embora hoje o Réveillon do Rio seja um evento global e registrado pelo Guinness World Records, poucos sabem que sua identidade visual e ritualística nasceu das mãos de Tata Tancredo. Líder da Umbanda Omolocô, ele foi o responsável por incentivar os fiéis a levarem oferendas ao mar e a vestirem branco como forma de saudação a Iemanjá na virada do ano. O que começou como um rito religioso de matriz africana, em meados do século XX, tornou-se a marca registrada da maior festa de rua do planeta.
Além do terreiro: samba e política
O enredo da Estácio de Sá, assinado pelo carnavalesco Marcus Paulo, destaca que Tancredo não era apenas um sacerdote, mas um pilar do samba carioca. Ele foi um dos fundadores da União das Escolas de Samba e compositor de sucessos memoráveis, como a marcha “General da Banda”, eternizada na voz de Blecaute e regravada por nomes como Elis Regina.
”Ele é uma figura que ainda ronda o Morro de São Carlos. Os moradores falam dele como se estivesse vivo, como um amigo próximo”, afirmou o carnavalesco Marcus Paulo em entrevistas recentes. Tancredo viveu e morreu no Estácio, reforçando o laço umbilical entre a escola de samba e o “Papa Negro”.
Novidades e reconhecimento oficial
A homenagem da Estácio de Sá em 2026 ganha ainda mais relevância diante de movimentações recentes na cidade:
- Monumento Histórico: O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou recentemente a intenção de erguer uma estátua em homenagem a Tata Tancredo, reconhecendo sua contribuição para o patrimônio imaterial da cidade e sua luta contra a intolerância religiosa.
- Resgate da Umbanda Omolocô: O desfile promete ser um manifesto contra o apagamento das raízes africanas na Umbanda. Tancredo foi um crítico ferrenho da “desafricanização” da religião, defendendo sempre o uso dos atabaques e o respeito aos fundamentos ancestrais.
O desfile
A Estácio de Sá será a quinta escola a desfilar no sábado de Carnaval pela Série Ouro. Com o samba-enredo já aclamado pela crítica — que conta com compositores de peso como Luiz Antonio Simas e Cláudio Russo —, a escola pretende transformar a Sapucaí em um imenso terreiro, celebrando o homem que ensinou o mundo a saudar o ano novo com paz, axé e a pureza do branco.




