A enxaqueca é muito mais do que uma simples dor de cabeça. Considerada a segunda maior causa de incapacidade no mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta cerca de 1 bilhão de pessoas globalmente. No Brasil, os índices são alarmantes, com estudos indicando que o país possui uma das maiores taxas de pacientes incapacitados pela doença.
Apesar de ser um problema antigo, a ciência deu passos largos entre 2024 e 2025 para decifrar o que realmente acontece no cérebro durante uma crise.
As verdadeiras causas: O “atalho” da dor no cérebro
Até recentemente, os médicos sabiam que o cérebro em si não possui neurônios sensíveis à dor. O mistério era como o sinal de dor chegava ao sistema nervoso periférico. Um estudo revolucionário da Universidade de Copenhague, publicado recentemente, identificou que o líquido cefalorraquidiano (o fluido que banha o cérebro) carrega proteínas diretamente para o gânglio trigêmeo, um centro nervoso crucial na face e na cabeça.
Os pesquisadores descobriram que, durante a “aura” (aqueles flashes de luz que antecedem a dor), o cérebro libera substâncias químicas que “vazam” através de uma lacuna nas camadas protetoras do gânglio trigêmeo. Esse contato direto ativa os nervos sensoriais, disparando a dor intensa.
Além disso, estudos genéticos da deCODE Genetics, na Islândia, analisaram dados de 1,3 milhão de pessoas e identificaram 44 variantes genéticas ligadas à enxaqueca, revelando que a doença pode ser herdada e ter diferentes “assinaturas” biológicas em cada paciente.
Soluções modernas: A era dos anticorpos monoclonais
Se no passado o tratamento era baseado em “tentativa e erro” com remédios para epilepsia ou pressão alta, hoje vivemos a era da medicina de precisão:
- Anticorpos Monoclonais (Anti-CGRP): Medicamentos como o Erenumabe e o Galcanezumabe foram desenvolvidos especificamente para bloquear a proteína CGRP, um dos principais gatilhos da dor. Eles são aplicados via injeção mensal e têm transformado a vida de quem sofre de enxaqueca crônica.
- Gefantes e Ditãs: Novas classes de comprimidos (como o Rimegepant) atuam diretamente nos receptores de dor sem causar a constrição dos vasos sanguíneos, sendo uma alternativa segura para quem não pode usar os antigos “triptanos”.
- Tecnologia e Estilo de Vida: Dispositivos de neuromodulação (que usam estímulos elétricos suaves) e o monitoramento via aplicativos ajudam a identificar gatilhos como sono irregular, jejum prolongado e o temido uso excessivo de analgésicos, que, segundo novas pesquisas, pode “reconfigurar” o cérebro e tornar a dor ainda mais frequente.
O futuro do tratamento
A descoberta de 12 novas proteínas sinalizadoras de dor abre caminho para que, nos próximos anos, surjam remédios ainda mais eficazes e com menos efeitos colaterais. Para quem convive com a escuridão e o silêncio forçados pelas crises, a mensagem dos cientistas é clara: a enxaqueca não é mais um mistério sem solução, mas uma condição neurológica tratável e cada vez mais compreendida.




