Quatro anos após as mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips, Vale do Javari enfrenta avanço do crime e abandono institucional

Quatro anos após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Vale do Javari, localizado no extremo oeste do Amazonas, permanece em estado de alerta contínuo. A região, que concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, segue sob intensa pressão do crime organizado, do garimpo ilegal, da pesca predatória e do narcotráfico transnacional.

As investigações e os desdobramentos judiciais avançaram no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Polícia Federal, levando ao indiciamento e ao processo de executores e mandantes conhecidos pelo apelido de “Colômbia”. Contudo, lideranças locais e organizações socioambientais apontam que a responsabilização criminal de indivíduos não foi suficiente para desmantelar as redes de financiamento e a infraestrutura logística que operam na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.

A União das Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e a equipe da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) — iniciativa idealizada por Bruno Pereira — mantêm os trabalhos de monitoramento e fiscalização do território de forma autônoma. Segundo relatórios da entidade e levantamentos de direitos humanos, os agentes da vigilância indígena continuam sendo alvos de ameaças diretas de morte e intimidação por parte de grupos armados que invadem a terra indígena.

Apesar da criação do Ministério dos Povos Indígenas e do fortalecimento das operações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do IBAMA nos últimos anos, a presença ostensiva do Estado no Vale do Javari ainda enfrenta gargalos logísticos e orçamentários. As bases de proteção etnoambiental operam no limite de sua capacidade, enquanto a falta de contingente permanente das Forças Armadas e da Polícia Federal facilita a reocupação de áreas estratégicas por grupos criminosos.

O legado de Bruno e Dom permanece como um símbolo internacional na defesa da Amazônia e dos direitos indígenas, mas a realidade em campo demonstra que a garantia da integridade territorial e a proteção das populações locais exigem uma presença estatal contínua, integrada e de longo prazo.


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