A crise humanitária na Faixa de Gaza atingiu um novo patamar de gravidade com o avanço de uma “ameaça silenciosa” que rasteja sob os escombros e por entre as lonas dos acampamentos. O ministro da Saúde da Palestina, Majed Abu Ramadan, emitiu um alerta urgente nas últimas semanas, reforçado por relatos dramáticos de organizações internacionais, sobre a proliferação descontrolada de roedores que estão atacando civis e disseminando patógenos perigosos em áreas de refúgio.
O cenário é de colapso sanitário. O acúmulo de toneladas de lixo não coletado, a destruição total dos sistemas de esgoto e as carcaças de animais e restos humanos sob os destroços criaram o que especialistas chamam de “ambiente perfeito” para a reprodução de ratos e camundongos.
O perigo dentro das tendas
Diferente dos bombardeios, contra os quais pouco se pode fazer, a infestação de ratos trouxe um terror cotidiano e psicológico. Relatos colhidos por agências como a UNRWA e veículos como a BBC e a CNN descrevem roedores que invadem tendas durante a noite, mordendo os dedos das mãos e dos pés de crianças enquanto dormem.
O ministro Abu Ramadan destacou que o risco não se limita às mordidas diretas. A transmissão de doenças ocorre de múltiplas formas:
- Contaminação indireta: Através da urina e fezes nos escassos mantimentos (arroz, lentilhas e farinha) que as famílias tentam proteger.
- Parasitas: Pulgas e carrapatos pegos nos roedores estão espalhando infecções cutâneas severas.
- Doenças específicas: Há registros e temores crescentes de surtos de leptospirose, hantavírus, salmonela e até mesmo a peste, além da “febre da mordida do rato”.
Um sistema de saúde incapaz de responder
A situação é agravada pela destruição da infraestrutura médica. Muitos dos antibióticos necessários para tratar as infecções causadas por roedores estão em falta ou são comercializados a preços exorbitantes no mercado paralelo. “Não tínhamos como conseguir o remédio. Ele não estava disponível em lugar nenhum”, relatou um morador de Khan Younis à FEPAL, após seu irmão desenvolver feridas pelo corpo após o contato com ratos.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) reportou que doenças ligadas às péssimas condições de vida já representam cerca de 70% das consultas ambulatoriais em suas unidades no sul de Gaza.
Apelo internacional
Majed Abu Ramadan convocou a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros órgãos internacionais para uma intervenção imediata. O pedido não é apenas por medicamentos, mas por materiais de controle de pragas e saneamento básico emergencial. Com cerca de 1,7 milhão de pessoas deslocadas vivendo em condições precárias, a preocupação é que, sem uma ação coordenada, uma epidemia em larga escala se torne inevitável, somando-se à já crítica situação de desnutrição que debilita o sistema imunológico, especialmente das crianças.




