Artigo

A Cerca de VidroUma crônica sobre o poder

Por Eduardo Matysiak

O vizinho da esquerda tem a terra rica e a casa quebrada. O quintal produz mais do que parece possível para alguém que vive cercado de rachaduras. Ele planta o que quer, do jeito que aprendeu, e colhe sob o peso permanente de olhos famintos que observam por cima do muro. Não é apenas inveja; é interesse organizado. Onde a terra rende, alguém sempre aparece disposto a explicar por que faria melhor.

Ao Norte, o vizinho poderoso observa de cima, da varanda limpa de sua mansão. Não pisa na lama. Prefere chamar de desordem aquilo que não controla. Reclama da batata, diz que o cheiro é invasivo, que o cultivo é primitivo, que o agricultor é irresponsável. O discurso é civilizado, mas o desejo é cru: o adubo raro que corre sob aquela terra vale mais do que qualquer argumento sobre boas práticas.

No papel, a solução parece simples. Se o dono não cultiva como deveria, entra-se, reorganiza-se tudo e planta-se quiabo. Eficiência, ordem, progresso. A enxada muda de mão e o problema estaria resolvido. O erro está em acreditar que o mundo real aceita esse tipo de atalho. Fora do papel, cercas não são feitas de madeira; são feitas de soberania. Pular o muro do vizinho não é um gesto agrícola, é uma declaração de poder. É dizer que escrituras, fronteiras e Constituições só valem enquanto não atrapalham quem tem força suficiente para ignorá-las.

O vizinho da esquerda chama ajuda de bairros distantes, gente que mal conhece, não por confiança, mas por cálculo. Quem não se junta agora pode ser cercado depois. Não é amizade, é medo compartilhado. O Norte, por sua vez, prefere armas mais silenciosas: fecha caminhos, contamina o comércio, espalha o agrotóxico elegante das sanções, esperando que a batata apodreça no chão até que a fome faça o trabalho que a força começou.

Nesse jogo de roubo da colheita, não há vencedores limpos. A terra se cansa, o solo endurece, e o conflito vira método. Até quem assiste aprende a lição errada: a de que cercas são provisórias e a força, permanente. No fim, nunca foi sobre quiabo ou batata. Foi sobre quem decide o que é aceitável plantar e quem tem poder para arrancar. Porque o momento mais perigoso não é quando a cerca é atacada, mas quando ela cai. E então todos descobrem, tarde demais, que era de vidro — inclusive quem a derrubou.

Eduardo Matysiak
Jornalista e fotógrafo paranaense, premiado no Brasília Photo Show e homenageado com menção honrosa pela Alep por sua trajetória no fotojornalismo. Colaborador de veículos nacionais e internacionais, escreve artigos que cruzam a atualidade com a análise cinematográfica, unindo cultura e política sob um olhar visual único.

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