A chegada de uma série de aeronaves oficiais da Rússia ao Aeroporto Internacional de Brasília, entre o final de janeiro e o início de fevereiro de 2026, colocou o Itamaraty e observadores internacionais em estado de atenção. A movimentação ocorre exatos seis meses após o polêmico episódio de agosto de 2025, quando um cargueiro russo sob sanções dos Estados Unidos pousou na capital federal sob forte sigilo, levantando suspeitas sobre o transporte de materiais sensíveis.
O contexto atual: Reunião de Alto Nível
Desta vez, a presença das aeronaves — que incluem o Ilyushin Il-96-300 do Esquadrão de Voos Especiais de Moscou e o cargueiro Antonov An-124 — tem uma justificativa oficial. Segundo o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Brasil sedia nesta semana a 8ª Reunião da Comissão de Alto Nível de Cooperação (CAN), o primeiro encontro deste escalão desde 2015.
- Pauta oficial: Cooperação em energia, defesa, ciência e tecnologia, além do uso de moedas locais em transações comerciais para contornar o sistema financeiro ocidental.
- Comitiva: A delegação russa conta com oito ministros e chefes de agências governamentais, o que justifica o uso de múltiplas aeronaves de grande porte.
A sombra do “Voo Suspeito” de 2025
Apesar da agenda diplomática, a desconfiança persiste devido ao precedente de agosto de 2025. Naquela ocasião, um Ilyushin Il-76TD da companhia Aviacon Zitotrans — empresa sancionada pelo Departamento do Tesouro dos EUA por suposto transporte de equipamentos bélicos para a Venezuela e Coreia do Norte — permaneceu dias na Base Aérea de Brasília.
”A soberania brasileira não pode ser moeda de troca para acordos obscuros”, afirmou o senador Marcio Bittar (União-AC) na época, ao exigir explicações sobre a carga e a autorização de pouso para uma aeronave banida do espaço aéreo de diversos aliados ocidentais.
Naquele período, o governo brasileiro manteve sigilo sobre o manifesto de carga, o que gerou ruídos com a administração de Donald Trump, que recentemente havia retornado à Casa Branca com uma postura rígida sobre a influência russa na América Latina.
Tensão geopolítica e logística
Os voos atuais também chamam a atenção pela logística. Para evitar o espaço aéreo europeu (devido às sanções decorrentes da guerra na Ucrânia), as aeronaves russas realizaram rotas extensas com escalas técnicas no Marrocos e no Senegal antes de cruzar o Atlântico.
Especialistas em defesa monitoram se, além da comitiva diplomática, há o desembarque de equipamentos de monitoramento ou defesa cibernética, temas que foram centro das especulações no incidente de 2025. O governo brasileiro reafirma que todas as operações seguem as normas da ANAC e os protocolos de visitas de Estado.




