O debate sobre a sensibilidade institucional e o respeito à dignidade humana no Brasil ganha novos contornos quando confrontado com episódios recentes da história política. Recentemente, a notícia de que a ex-presidente Dilma Rousseff será indenizada pela União em R$ 400 mil por danos morais, decorrentes da tortura física e psicológica sofrida durante a ditadura militar, trouxe à tona o questionamento sobre o limite da empatia e do pudor no discurso público.
A decisão judicial do TRF1 reforça que as violações sofridas por Dilma não são apenas narrativas, mas fatos históricos reconhecidos pelo Estado. Entretanto, cabe perguntar por que essa sensibilidade institucional, hoje cobrada em diversos setores, pareceu inexistente em momentos críticos, como na votação do impeachment em 2016.
O “Pavor de Dilma Rousseff”
Naquela sessão histórica, o então deputado federal Jair Bolsonaro proferiu um voto que ecoaria por anos como um marco da desumanização do adversário político. Ao dedicar seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, Bolsonaro referiu-se ao militar como “o pavor de Dilma Rousseff”.
Ustra, o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça brasileira como torturador, comandou o DOI-CODI entre 1970 e 1974. Sob sua gestão, foram registrados pelo menos 50 mortes e desaparecimentos, além de centenas de casos de tortura que incluíam espancamentos e o uso de animais em prisioneiras. A exaltação de um agente estatal condenado por abusos, justamente no momento de fragilidade institucional de uma presidente que foi sua vítima direta, marcou um período em que a empatia foi deixada de lado em nome da conveniência política.
A ausência de limites e o uso da saúde
A falta de pudor citada por observadores políticos da época não se restringiu à apologia à ditadura. Durante o período em que Dilma Rousseff lutava contra um câncer linfático, ainda em sua trajetória pública, e posteriormente nos embates políticos, a saúde da ex-presidente foi frequentemente alvo de ataques e relativizações.
”Naquele momento, não houve empatia, não houve pudor, não houve limites”, resume a crítica sobre o tratamento dispensado à mandatária.
O histórico de exaltação ao sofrimento alheio e a relativização da tortura contrastam drasticamente com os pedidos de “equilíbrio” e “respeito” que surgem no cenário atual. A trajetória do coronel Ustra, elevado a “herói nacional” por setores da extrema-direita, serve como lembrete de que o desprezo pelos direitos humanos já foi utilizado como plataforma política com pouca ou nenhuma resistência ética interna.
Linha do Tempo: A Exaltação da Tortura no Discurso Público
- 1970-1974: Gestão de Brilhante Ustra no DOI-CODI.
- 2008: Justiça de SP declara Ustra torturador (primeira condenação do tipo).
- 2016: Jair Bolsonaro exalta Ustra como “o pavor de Dilma” durante o impeachment.
- 2019: Como presidente, Bolsonaro volta a chamar Ustra de “herói nacional”.
- 2025: Justiça confirma indenização a Dilma Rousseff por torturas sofridas no regime militar.
A reflexão que fica para a sociedade brasileira é sobre a consistência dos valores democráticos. Quando os direitos humanos são protegidos apenas para aliados e desprezados para oponentes, a própria base da civilidade é colocada em xeque.







