Com o início da Copa do Mundo, a preocupação em relação ao calor extremo e à alta umidade no Hemisfério Norte acendeu o sinal de alerta entre a comunidade científica e representantes de atletas. Um grupo de 20 cientistas de referência mundial e o sindicato global de jogadores (Fifpro) intensificaram as cobranças para que a Fifa adote protocolos mais rígidos e reformule suas diretrizes de segurança, visando proteger a saúde de quem estará dentro de campo.
De acordo com estudos recentes publicados pelo periódico The Conversation e uma análise do Financial Times, cerca de um quarto de todas as partidas do torneio — o equivalente a 26 jogos — correm o risco de serem disputadas sob condições críticas de estresse térmico. O principal indicador utilizado por especialistas é o WBGT (temperatura de globo de bulbo úmido), um índice que combina temperatura, umidade, vento e radiação solar. Tanto cientistas quanto a Fifpro consideram que um WBGT acima de 28°C representa perigo imediato à integridade física e ao rendimento, patamar a partir do qual as partidas deveriam ser adiadas ou suspensas.
O que diz a Fifa e quais as medidas atuais
Diante da pressão, a Fifa anunciou medidas para tentar atenuar o impacto climático nas cidades-sede, principalmente em regiões severamente afetadas nos Estados Unidos (como Texas, Califórnia e Flórida), no México e no Canadá. A entidade máxima do futebol introduziu pausas obrigatórias de três minutos para hidratação na metade de cada tempo, independentemente das condições do tempo no dia.
A organização afirmou em nota estar “comprometida em proteger a saúde e a segurança de jogadores, árbitros, torcedores, voluntários e funcionários”, ressaltando que os riscos climáticos foram integrados ao planejamento. Contudo, críticos lembram que nem todos os locais contam com estruturas como o Atlanta Stadium, que possui teto retrátil e ar-condicionado capaz de manter o ambiente em confortáveis 22°C. Cerca de nove das partidas classificadas como de “alto risco térmico” ocorrerão em arenas totalmente abertas e sem sistemas artificiais de resfriamento.
Demandas da comunidade científica e estratégias em campo
Especialistas de renomadas instituições do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Austrália assinaram uma carta aberta pedindo mudanças mais profundas e urgentes. Entre as principais exigências estão:
- Pausas para resfriamento mais longas, com duração de pelo menos seis minutos;
- Atualizações dinâmicas e diárias dos regulamentos com base em dados meteorológicos em tempo real;
- Vetar horários de jogos no início ou meio da tarde em locais historicamente quentes.
O estresse térmico não afeta apenas a saúde, mas também desfigura a dinâmica do futebol. Dados analisados de torneios anteriores mostram que, sob forte calor, os atletas são obrigados a diminuir o ritmo de corrida (fenômeno conhecido como pacing) para evitar colapsos ou lesões. Isso força as equipes a abandonarem táticas de alta pressão para adotar um estilo mais lento e baseado na posse de bola, prejudicando o espetáculo. Além disso, jogadores mais velhos e de posições com alta exigência de velocidade, como atacantes e meio-campistas, sofrem um desgaste muito mais acentuado.
A pressão sobre a Fifa para atualizar os limites aceitáveis de temperatura reflete a nova realidade do esporte global diante das mudanças climáticas, indicando que manter o calendário tradicional nos meses de verão pode se tornar inviável para as próximas edições da principal competição do planeta.









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