DITADURAS DO Cone Sul celebram 50 anos da Operação Condor sob novas investigações e identificações forenses

O que começou como uma “reunião de trabalho” secreta entre os dias 25 e 29 de novembro de 1975, na Academia de Guerra do Exército do Chile, consolidou-se como a mais sofisticada rede de terrorismo de Estado da América Latina. Meio século após o encontro liderado por Manuel Contreras Sepúlveda, chefe da polícia secreta chilena (DINA), a Operação Condor volta ao centro do debate público com novas descobertas forenses e campanhas de memória que tentam preencher as lacunas deixadas por décadas de silêncio.

​O “Ninho do Pássaro”: A origem do pacto

​Organizada pessoalmente por Contreras — braço direito do ditador Augusto Pinochet —, a conferência em Santiago reuniu cúpulas de inteligência da Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai (com a adesão posterior do Brasil e de outros países). O objetivo era claro: formalizar uma guerra transnacional contra a “subversão”.

​Documentos desclassificados recentemente e analisados por historiadores reforçam que o Brasil, embora inicialmente tenha mantido uma postura de “observador cauteloso” para preservar sua soberania, foi peça fundamental no suporte logístico e na troca de informações que permitiram o sequestro de opositores em solo estrangeiro.

​Novidades: Identificação de vítimas e avanços judiciais (2024-2025)

​A passagem dos 50 anos da operação, celebrada em fóruns internacionais em 2024 e 2025, trouxe avanços significativos para as famílias dos desaparecidos:

  • O Caso Tenório Jr.: Em setembro de 2024, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) utilizou novas técnicas de análise de impressões digitais para confirmar detalhes sobre o paradeiro do pianista brasileiro Francisco Tenório Júnior, desaparecido em Buenos Aires em 1976. O caso é um dos símbolos da letalidade do Condor contra civis sem militância armada.
  • Certidões de Óbito Retificadas: No Brasil, em dezembro de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) entregou novas certidões de óbito a familiares de vítimas da ditadura. Os documentos agora registram oficialmente a responsabilidade do Estado e a natureza política das mortes, um passo crucial para a reparação histórica.
  • O “Arquivo do Terror” no Paraguai: Pesquisas recentes em documentos encontrados no Paraguai revelaram que a colaboração entre as ditaduras era ainda mais intensa antes mesmo da reunião oficial de 1975, com Manuel Contreras já operando uma rede de “favores repressivos” com o regime de Alfredo Stroessner.

​O legado de Manuel Contreras

​Manuel Contreras Sepúlveda, o arquiteto do plano, morreu em 2015 cumprindo penas que somavam mais de 500 anos de prisão. No entanto, o “sistema” que ele ajudou a criar — dividido em três fases: troca de informações, operações táticas e assassinatos seletivos em países terceiros (como o de Orlando Letelier em Washington) — continua a ser objeto de julgamentos em tribunais internacionais, como os processos em curso na Itália contra ex-militares uruguaios e chilenos.

​”Nunca Mais” regional

​Em seminários realizados em Santiago e Brasília no final de 2025, representantes dos países do Cone Sul lançaram a campanha “Nunca mais haverá uma Operação Condor em nossa região”. A iniciativa busca transformar antigos centros de tortura em espaços de memória e garantir que os arquivos militares remanescentes sejam abertos, combatendo o negacionismo histórico que ainda cerca o tema.

​Cinquenta anos depois, a “guerra secreta” de Contreras não é mais segredo, mas a busca por corpos e pela justiça completa permanece como uma ferida aberta na democracia sul-americana.

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