A divulgação dos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), ocorrida nesta última segunda-feira (19), marca um divisor de águas na educação médica brasileira. O exame, desenhado para monitorar a qualidade do ensino de Medicina no país, encerra seu ciclo inicial em meio a um intenso debate entre o Ministério da Educação (MEC), órgãos de classe e instituições de ensino superior (IES).
O balanço da primeira edição
Diferente de avaliações generalistas, o Enamed foca nas competências clínicas e éticas essenciais para o exercício da profissão. Os dados consolidados apontam um panorama heterogêneo: enquanto centros tradicionais mantiveram altos índices de aproveitamento, novas faculdades — muitas abertas durante a expansão do programa Mais Médicos — apresentaram lacunas preocupantes em áreas como atenção primária e urgência.
De acordo com as últimas atualizações do Inep, a adesão dos estudantes foi considerada satisfatória para um ano de estreia, mas o foco agora se volta para o uso regulatório desses dados.
O impasse das punições
O ponto de maior atrito no setor educacional é a intenção do governo de utilizar o desempenho no Enamed como gatilho imediato para sanções. Entidades representativas das faculdades privadas argumentam que:
- Maturação do Exame: Defendem que o exame ainda precisa de calibração técnica antes de servir como base para fechamento de vagas ou suspensão de novos cursos.
- Fatores Externos: Alegam que o desempenho dos alunos pode ser influenciado por fatores regionais e de infraestrutura hospitalar local, não apenas pela gestão acadêmica.
- Segurança Jurídica: Existe o temor de que punições severas baseadas em uma única edição gerem uma onda de judicialização contra o MEC.
Por outro lado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e associações médicas têm pressionado por um rigor maior, sustentando que a proliferação de cursos sem a devida qualidade coloca em risco a segurança dos pacientes.
Próximos passos e novidades
Fontes ligadas ao Ministério da Educação indicam que o governo estuda uma escala de transição. Em vez de punições sumárias, o MEC deve propor um regime de “supervisão assistida” para as instituições com desempenho insuficiente, estabelecendo prazos para adequação de currículos e melhoria do corpo docente antes de aplicar medidas drásticas como o descredenciamento.
Além disso, já se discute para 2026 a inclusão de uma etapa prática obrigatória em modelos de simulação realística, visando tornar o Enamed ainda mais fiel ao cotidiano médico.
“O Enamed não nasceu para ser apenas um ranking, mas um termômetro da saúde pública brasileira através da formação de seus profissionais”, afirma o relatório preliminar de avaliação.
A expectativa agora recai sobre a publicação do edital da próxima edição, que deverá detalhar se haverá mudanças no peso das notas para a residência médica, um dos principais atrativos para a dedicação dos estudantes ao exame.



