Por Julio Take/Agência de Notícias Take
Atualizado em 18 de janeiro de 2026
O vídeo que chegou ao celular de Omar, um operário sírio de 26 anos, não trazia notícias da família ou saudações de amigos. Em vez disso, mostrava seu passaporte sendo consumido pelo fogo enquanto uma voz feminina, em russo, sentenciava: “Está queimando bem”. O gesto simbólico e cruel resume o destino de centenas de estrangeiros atraídos por Moscou para as linhas de frente na Ucrânia: o fim da identidade e a perda do direito de escolha.
Omar (nome fictício adotado por segurança) trabalhou por nove meses no front antes de confrontar sua recrutadora, Polina Alexandrovna Azarnykh. Segundo o jovem, a promessa era de um emprego lucrativo e cidadania russa. A realidade, contudo, foi o envio para o combate com apenas dez dias de treinamento. Quando ele se recusou a pagar taxas extorsivas à intermediária e tentou abandonar a missão, a resposta veio em forma de cinzas.
Uma rede global de “engano e coação”
O caso de Omar não é isolado. Investigações recentes e relatórios de inteligência apontam para uma sofisticada rede de recrutamento que se estende da Síria à Índia, passando pelo Nepal, Cuba e diversos países africanos.
- Na Ásia: O governo da Índia desmantelou, em meados de 2024 e 2025, quadrilhas de tráfico humano que atraíam jovens para supostos empregos de “ajudantes de exército” ou “seguranças” em Moscou. Ao chegarem, eram forçados a assinar contratos em russo — idioma que não compreendiam — e enviados para o front.
- Na África: A Rússia substituiu o antigo Grupo Wagner pelo “Africa Corps”, controlado diretamente pelo Ministério da Defesa. Relatórios indicam que o recrutamento em países como Ruanda, Burundi e Congo oferece salários de cerca de US$ 2.200, além da cidadania, mas muitos recrutas acabam em sacos de lixo à beira das estradas, como relatou Omar ao descrever o tratamento dado aos mortos.
O decreto do “contrato infinito”
A maior armadilha enfrentada por esses homens é um decreto russo de 2022 que permite a renovação automática de contratos militares até o fim da “operação militar especial”. Para muitos estrangeiros, o que deveria ser um serviço de um ano transformou-se em uma sentença de prisão perpétua em campo de batalha.
”Eles nos veem como números ou dinheiro, não como pessoas”, desabafou Omar em entrevista à BBC, após conseguir fugir para a Síria. Enquanto ele sobreviveu, dois de seus companheiros sírios não tiveram a mesma sorte; suas famílias receberam apenas a notícia do óbito, sem corpos ou honrarias.
Reação internacional
A Ucrânia lançou o programa “Quero Viver”, com páginas em árabe, inglês e hindi, incentivando esses mercenários forçados a se renderem em troca de segurança e status de prisioneiro de guerra. Enquanto isso, governos como os de Nova Déli e Katmandu intensificam a pressão diplomática sobre o Kremlin para repatriar seus cidadãos, denunciando que seus nacionais foram vítimas de “suborno e chantagem”.
Moscou, por sua vez, mantém o silêncio oficial sobre o número de estrangeiros em suas fileiras, embora a evidência de passaportes queimados e vídeos de recrutamento em redes sociais como TikTok e Telegram revelem a escala de uma mobilização que agora busca no “Sul Global” o fôlego que começa a faltar em solo russo.




