Banco Central americano interrompe sequência de quedas e mantém taxas entre 3,50% e 3,75%, expondo divisão interna e queda de braço com a Casa Branca
WASHINGTON – Em sua primeira decisão de 2026, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve (Fed) decidiu, nesta quarta-feira (28), manter a taxa de juros dos Estados Unidos no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. A medida interrompe o ciclo de três cortes consecutivos realizados no final de 2025 e marca um posicionamento de cautela de Jerome Powell, presidente da instituição, diante de uma inflação que ainda não convergiu totalmente para a meta de 2%.
Um comitê dividido
A manutenção não foi unânime, revelando um “racha” crescente na cúpula do BC americano. Dos membros votantes, dez optaram pela pausa, enquanto dois — Stephen Miran e Christopher Waller — divergiram abertamente, defendendo uma redução imediata de 0,25 ponto percentual.
Miran, recentemente indicado pelo presidente Donald Trump, tem sido uma voz constante a favor de juros mais baixos, alinhando-se à retórica da Casa Branca. Já Waller, visto como um dos favoritos para suceder Powell em maio, surpreendeu ao se juntar à dissidência, o que analistas interpretam como um sinal de que a pressão política pode estar começando a ecoar nos corredores do Fed.
Pressão da Casa Branca e investigação
A decisão ocorre sob um clima de extrema tensão institucional. O presidente Donald Trump intensificou os ataques a Jerome Powell nas últimas semanas, chamando a política monetária de “restritiva” e acusando o Fed de tentar sabotar o crescimento econômico.
Somando-se à pressão política, o Departamento de Justiça (DoJ) abriu recentemente uma investigação criminal sobre gastos bilionários em uma reforma na sede do Fed, um movimento que aliados de Powell classificam como tentativa de intimidação. Em coletiva de imprensa após o anúncio, Powell reiterou a independência da autoridade monetária: “Nossas decisões são baseadas em dados econômicos, não em pressões políticas”, afirmou.
Cenário econômico e projeções
O comunicado oficial destacou que a atividade econômica segue se expandindo a um “ritmo sólido”, com o desemprego estabilizado em 4,4%. No entanto, o Fed alertou que a inflação “permanece um tanto elevada”.
Para o mercado financeiro, a sinalização é de que o Fed entrou em modo “esperar para ver”. Atualmente, as ferramentas de monitoramento (como o FedWatch) indicam uma probabilidade de 86% de que as taxas permaneçam inalteradas também na reunião de março. O mercado agora projeta apenas mais um corte de juros para todo o ano de 2026, possivelmente em junho, quando um novo presidente deverá estar à frente da instituição.
Reflexos no Brasil
A postura conservadora do Fed traz impactos diretos para o Brasil. Com os juros americanos estáveis em patamares ainda elevados, o Banco Central do Brasil encontra menos espaço para flexibilizar a Selic, sob o risco de fuga de capitais e pressão inflacionária via câmbio. Na “Super Quarta” de hoje, o Copom também deve anunciar sua decisão, com a expectativa majoritária de manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, acompanhando o tom de cautela global.




