O que deveria ser o símbolo da modernização do litoral paranaense tornou-se, nos últimos dias, o centro de uma intensa crise técnica e política. A obra de engorda da orla de Matinhos, que recebeu investimentos superiores a R$ 513 milhões, voltou a sofrer com a força das marés, resultando em degraus de areia de até dois metros de altura e o arraste de milhares de sacos de contenção para dentro do oceano. O episódio motivou uma denúncia formal ao Ministério Público do Paraná (MP-PR) e colocou sob suspeita a eficácia do projeto executado pelo Governo do Estado.
O avanço do mar e os danos estruturais
Entre os dias 19 e 23 de janeiro de 2026, fortes ressacas atingiram o litoral, expondo a vulnerabilidade de trechos recém-revitalizados. Na Praia Brava, a erosão formou um paredão de areia próximo às estruturas montadas para o evento Verão Maior Paraná, promovido pelo estado. Banheiros químicos chegaram a tombar com o avanço das ondas, e imagens de surfistas e moradores retirando sacos de areia do mar viralizaram nas redes sociais, levantando alertas sobre o impacto ambiental desse material no ecossistema marinho.
Caso de polícia e de Justiça
Diante do cenário, o deputado estadual Arilson Chiorato (PT), líder da Oposição na Assembleia Legislativa (Alep), protocolou uma representação no MP-PR solicitando a apuração de possíveis danos ambientais, falhas técnicas de engenharia e desperdício de recursos públicos. “O que era para proteger a praia virou lixo dentro do mar. É o dinheiro do povo sendo engolido pelas ondas”, afirmou o parlamentar.
Críticos e pesquisadores, inclusive da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já haviam emitido notas técnicas alertando que a retirada da restinga e a ocupação da faixa de areia aumentariam a vulnerabilidade da costa a fenômenos cíclicos de ressaca.
O que diz o Governo e o IAT
Por outro lado, o Instituto Água e Terra (IAT) e o governador Ratinho Jr. minimizam os impactos. Segundo o órgão, a erosão é um processo “natural e previsto” decorrente das fases da lua e das condições climáticas. O IAT informou que a manutenção realizada nesta semana — que exigiu a reposição de 5 mil metros cúbicos de areia — representa menos de 0,1% do total da obra (3,5 milhões de m³).
O secretário de Desenvolvimento Sustentável, Everton Souza, garantiu que a estrutura é segura e que as intervenções evitaram danos maiores a residências e comércios que, antes da obra, eram frequentemente inundados.
Shows mantidos sob vigilância
Apesar da polêmica e do isolamento de alguns trechos da areia, a programação de shows do Verão Maior, que inclui atrações nacionais como Raça Negra, foi mantida. Equipes da Defesa Civil e do Governo do Estado realizam vistorias diárias para garantir a segurança dos veranistas. Enquanto as máquinas trabalham para nivelar a areia novamente, o debate sobre a sustentabilidade da “Nova Matinhos” promete seguir aquecido nas esferas jurídicas e políticas durante todo o ano de 2026.




