O otimismo estrangeiro tomou conta da B3 neste início de 2026, levando o Ibovespa a renovar recordes históricos acima dos 170 mil pontos. No entanto, o motor dessa disparada — a aposta em um corte iminente da taxa Selic — começa a mostrar sinais de fadiga técnica. Relatórios de grandes instituições financeiras, como o C6 Bank e a XP Investimentos, já recalcularam suas rotas, transferindo a expectativa do início do afrouxamento monetário de janeiro para março de 2026.
A grande incógnita que paira sobre a Faria Lima é o “day after” de uma eventual manutenção dos juros em 15% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Caso o Banco Central opte por uma postura mais cautelosa, o fluxo de capital estrangeiro, que tem sustentado a alta de papéis como Vale e Petrobras, corre o risco de uma reversão abrupta.
O cenário: gringos no “modo compra”
Até o momento, o investidor estrangeiro tem ignorado parte do ruído fiscal doméstico, focando no diferencial de juros e na queda das taxas nos Estados Unidos. Com o Federal Reserve (Fed) reduzindo os juros americanos para a faixa de 3,50% a 3,75%, o Brasil tornou-se um destino óbvio para o carry trade e para a busca por ativos descontados.
Dados recentes da B3 mostram que a entrada de capital externo foi o principal combustível para o rali de janeiro. Os “gringos” estão comprando o chamado “pacote Brasil”, acreditando que a inflação, agora projetada em 4% para 2026 pelo Boletim Focus, dá margem para o BC finalmente baixar o sarrafo.
O risco: a frustração de março
A mudança de consenso de janeiro para março não foi apenas uma questão de calendário. Analistas apontam que o Copom está “jogando o jogo do câmbio”. Para o Banco Central, o corte de juros depende de um dólar mais comportado, idealmente abaixo de R$ 5,40.
Se o Copom mantiver a Selic parada em março, o cenário para o investidor estrangeiro pode mudar drasticamente:
- Realinhamento de Carteiras: O investidor de curto prazo, que entrou visando o ganho de capital com a valorização dos títulos prefixados, pode realizar lucros e retirar recursos do país.
- Pressão no Câmbio: Uma saída em massa de dólares poderia pressionar a moeda brasileira para cima, criando um círculo vicioso que impediria o corte de juros por ainda mais tempo devido ao impacto inflacionário do dólar alto.
- Correção no Ibovespa: Setores sensíveis a juros, como varejo (Magazine Luiza, Lojas Renner) e construção civil, que já vinham antecipando a melhora nas margens, seriam os primeiros a sofrer uma correção técnica.
O que dizem os especialistas
Enquanto o mercado futuro de juros (DIs) já precifica um alívio nas taxas para 2026, economistas como os da XP Investimentos reforçam que a queda adicional da inflação rumo à meta de 3% será “árdua”. O Boletim Focus desta segunda-feira (26) manteve a previsão da Selic em 12,25% ao ano para o fim de 2026, o que pressupõe um ciclo de cortes, mas o timing de início é o que ditará o humor dos investidores nas próximas semanas.
O jornalista econômico observa que o Brasil vive um momento de “espera vigilante”. O gringo comprou o país esperando o corte. Se o corte não vier, o “pacote Brasil” pode ser devolvido mais rápido do que chegou.




