Ministério Público investiga show da dupla João Vitor e Gabriel e suspeita de favorecimento envolve Cobra Repórter

Diferença de mais de R$ 34 mil em cachês pagos pela prefeitura de Primeiro de Maio em relação a municípios vizinhos acende alerta sobre possível superfaturamento e uso político de eventos públicos.

​O Ministério Público do Paraná (MP-PR) instaurou um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na contratação da dupla sertaneja João Vitor e Gabriel pela Prefeitura de Primeiro de Maio. O foco da investigação, que tramita sob o número 0115.25.000265-2, é a discrepância nos valores pagos pelo show e a ligação direta da dupla com o deputado estadual Cobra Repórter (PSD).

​Gabriel, um dos integrantes, é filho do parlamentar, que também figura como titular da empresa contratada, a G A Gonçalves Silva Shows e Eventos.

​O peso dos números

​A contratação para a primeira Agro Fest de Primeiro de Maio, realizada em julho de 2025, custou aos cofres públicos R$ 50 mil. O valor chamou a atenção dos órgãos de controle por ser três vezes superior ao pago pela Prefeitura de Ibiporã apenas um mês antes, onde a mesma apresentação custou R$ 15,5 mil.

​Relatórios preliminares do MP indicam que não há justificativa técnica para tamanha diferença de preço, uma vez que as cidades são vizinhas e possuem perfis semelhantes. Além disso, a prefeitura contratou som, palco e iluminação separadamente, o que derruba o argumento de que o valor maior incluiria infraestrutura adicional.

​Vitrine política e emendas parlamentares

​Além do suposto superfaturamento, o Ministério Público apura se os eventos serviram como “palanque eleitoral”. Durante a Agro Fest, o deputado Cobra Repórter subiu ao palco acompanhado do prefeito Bruno Santa Rosa e do secretário estadual de Saúde, Beto Preto, para anunciar investimentos de R$ 8 milhões na saúde local.

​O padrão de contratações da dupla em outros municípios também está sob a lupa:

  • Congonhinhas: Contratação de R$ 15 mil (2022) após anúncio de R$ 600 mil em pavimentação pelo deputado.
  • Nova Fátima: Show vinculado à entrega de um caminhão de R$ 850 mil via emenda parlamentar.
    • Atualização: Documentos recentes mostram que em Nova Fátima, uma nova licitação para a dupla em dezembro de 2024 chegou a ser cancelada após recomendações administrativas.
  • Faxinal: Registros de julho de 2025 mostram a contratação da dupla por R$ 40 mil, valor que também destoa dos contratos iniciais da carreira dos artistas.

​Outro lado

​A prefeitura de Primeiro de Maio, por meio do secretário de comunicação Marcelo Villa, defende a legalidade da contratação por inexigibilidade, alegando que o valor foi baseado em proposta comercial e documentos fiscais. O secretário de Agricultura, Edilson Devequio, afirmou desconhecer o parentesco entre o cantor e o deputado.

​Já o gabinete de Cobra Repórter informou que o parlamentar só se manifestará após notificação oficial. Gabriel, o filho do deputado, possui histórico no setor público, tendo ocupado cargo comissionado no Governo do Estado com salário de aproximadamente R$ 7 mil antes de se dedicar integralmente à carreira artística.

​Contexto nacional

​O caso no Paraná ecoa a crise dos “shows sertanejos” que estourou no Brasil em 2022, quando cachês milionários pagos por pequenas prefeituras a artistas como Gusttavo Lima e Zé Neto & Cristiano entraram na mira do Tribunal de Contas da União (TCU). A investigação atual reforça a pressão por maior transparência e critérios técnicos em contratações artísticas com dinheiro público, garantindo que o lazer da população não seja usado para desviar recursos de áreas críticas como saúde e educação.

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