Mundo em nova era de juros altos trará impactos profundos para o Brasil, avalia economista Samuel Pessoa

​A economia global está consolidando a transição para um novo regime macroeconômico, caracterizado por taxas de juros estruturalmente mais elevadas no médio e longo prazo. A avaliação é de Samuel Pessoa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) e economista do BTG Pactual. Em análise recente, o especialista alertou que o juro real global pós-pandemia tende a se estabilizar em um patamar cerca de 1,5 ponto percentual acima da média registrada no período anterior a 2020.

​Essa mudança de patamar no custo de capital internacional afeta diretamente os títulos públicos das principais economias do mundo, sobretudo os papéis de longo prazo do Tesouro dos Estados Unidos, onde investidores têm exigido retornos maiores — o chamado prêmio de duração — para financiar a dívida americana.

​De acordo com Pessoa, o cenário é especialmente desafiador para nações emergentes que dependem do fluxo de recursos externos. “É uma péssima notícia, principalmente para países como o nosso, que são países importadores de poupança”, afirmou. Ele explica que, diante do encarecimento do dinheiro no mercado internacional, o Brasil precisará pagar consideravelmente mais caro para atrair e reter a poupança global indispensável ao financiamento de seus investimentos e da sua própria dívida.

O reflexo no cenário doméstico e a pressão de mercado

​O ambiente externo desfavorável chega em um momento de acomodação e incertezas na política monetária brasileira. Após o Banco Central desacelerar o ritmo de flexibilização da taxa Selic, com um corte mais brando de 0,25 ponto percentual, a percepção predominante entre analistas é de que o ciclo de baixas está perto do fim ou temporariamente interrompido diante da resiliência inflacionária e do ambiente fiscal. Atualmente, com a Selic fixada em patamares que limitam espaço para quedas agressivas, o fluxo de caixa das empresas nacionais também começa a sentir o peso do crédito restrito.

​Especialistas do setor financeiro, como o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, corroboram o alerta de que o maior risco para o crescimento do Brasil reside exatamente na possibilidade de uma reversão brusca ou encarecimento desse fluxo global. Embora a diversificação da economia brasileira e os preços atrativos de ativos locais tenham funcionado como um colchão de amortecimento para o ingresso de capital estrangeiro no início do ano, o prêmio de risco exigido pelo investidor tende a aumentar substancialmente.

Incerteza fiscal e tensões geopolíticas elevam os riscos

​Somado ao cenário macroeconômico global de juros persistentemente altos, as projeções internas apontam para novos pontos de fricção. As discussões em torno do déficit público ganharam tração após alertas de publicações internacionais, como a revista The Economist, sugerirem que os juros elevados colocam os países ricos diante de uma “brasilificação” da economia — uma alusão ao severo fardo que o pagamento de juros representa sobre a dívida bruta em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

​Paralelamente, o ambiente geopolítico internacional conturbado, marcado por novos episódios de conflito no Oriente Médio e instabilidade no mercado de commodities energéticas, introduz volatilidade adicional ao câmbio e aos custos de produção, empurrando a inflação para perto do teto da meta. Em um ano em que o mercado monitora de perto as estratégias fiscais do governo e a desaceleração gradual do mercado de trabalho, a nova realidade internacional desenhada por Pessoa impõe barreiras severas: o Brasil terá de gerenciar sua dinâmica interna com muito mais rigor, uma vez que o dinheiro no resto do mundo ficou definitivamente mais caro.


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