O tabuleiro do narcotráfico internacional sofreu uma mudança drástica de eixo nos últimos anos. O que antes era uma rota direta da América do Sul para a Europa transformou-se em um complexo sistema de “consórcios transnacionais” que utiliza o continente africano — especialmente a África Ocidental — como o principal entreposto de redistribuição da cocaína produzida nos países andinos e escoada pelo Brasil.
Investigações recentes da Polícia Federal e relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) de 2025 apontam que as duas maiores facções brasileiras, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), deixaram de ser apenas grupos locais para atuar como verdadeiras multinacionais da logística criminal.
O Triângulo da Droga: Brasil, África e Europa
O Porto de Santos, no litoral paulista, permanece como a principal “porta de saída”. No entanto, o destino final não é mais apenas o porto de Antuérpia (Bélgica) ou Roterdã (Holanda). De acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o crime organizado passou a investir em países como Guiné-Bissau, Nigéria e Senegal.
Essas nações oferecem ao narcotráfico o que os especialistas chamam de “baixa resiliência institucional” — ou seja, fronteiras mais porosas e sistemas de fiscalização menos robustos que os europeus. Na África, a droga é fracionada e escondida em cargas lícitas para seguir viagem rumo ao mercado consumidor europeu, onde o preço do quilo da cocaína pode atingir valores dez vezes superiores ao do Brasil.
A Operação dos Consórcios
Diferente do modelo de cartéis verticais do passado, o modelo atual é o de consórcios. As facções brasileiras não operam sozinhas:
- PCC: Domina as principais rotas de exportação marítima e mantém alianças estreitas com a máfia italiana ‘Ndrangheta.
- Comando Vermelho: Expandiu-se agressivamente pela Amazônia (onde já controla laboratórios de refino na Tríplice Fronteira) e utiliza estados do Nordeste para o envio de entorpecentes para a África e Europa.
- Máfias Locais e Grupos de Terror: Na África, a droga é recebida por organizações locais que, em alguns casos, financiam grupos extremistas na região do Sahel, criando um ciclo de instabilidade que vai muito além do tráfico.
Números do Combate
O balanço das operações de 2025 e o início de 2026 mostram o tamanho do desafio. Apenas no Aeroporto de Guarulhos e no Porto de Santos, toneladas de cocaína foram apreendidas em cascos de navios e cargas de exportação. Em contrapartida, o Brasil subiu para a 14ª posição no ranking mundial de presença do crime organizado, evidenciando que, apesar das apreensões recordes, a capilaridade das facções continua crescendo.
Para as autoridades, o combate agora exige mais do que apreensões físicas; o foco migrou para a descapitalização. “O crime organizado hoje atua na economia real, lavando dinheiro em fintechs, postos de combustíveis e até no setor imobiliário”, aponta um relatório recente do Ministério da Justiça.
A África, portanto, não é apenas um ponto de passagem, mas o símbolo da “internacionalização definitiva” do crime organizado brasileiro, que hoje compete de igual para igual com as maiores organizações criminosas do planeta.




