O que deveria ter sido um pedido de socorro transformou-se em um pesadelo jurídico de anos para Ruth (pseudônimo), uma mulher que, ao denunciar ter sido estuprada por seu parceiro, acabou sendo indiciada pela própria polícia por “perverter o curso da justiça”. Após uma exaustiva batalha legal que mobilizou ativistas de direitos humanos, Ruth foi finalmente absolvida, mas o caso reacendeu um debate nacional sobre como as autoridades britânicas tratam sobreviventes de violência sexual.
De vítima a acusada
O caso de Ruth começou de forma traumática: ao entrar em uma delegacia para relatar o abuso, ela foi submetida a interrogatórios que, segundo sua defesa, focaram mais em encontrar inconsistências em seu relato do que em investigar o agressor. A polícia alegou que ela teria inventado a história, levando-a ao banco dos réus.
A absolvição de Ruth ocorre em um momento crítico para a Polícia Metropolitana de Londres (Met) e outras forças do Reino Unido, que enfrentam uma crise de confiança sem precedentes. Relatórios recentes de 2024 e do início de 2025 apontam que a prática de “culpabilização da vítima” ainda persiste em diversas unidades.
Novas diretrizes e o “Caso David Carrick”
A repercussão do caso de Ruth se soma ao impacto de escândalos anteriores, como o do ex-policial David Carrick, condenado por dezenas de estupros. Esses episódios forçaram o governo britânico a implementar, ao longo de 2025, novas diretrizes para investigações de crimes sexuais.
Entre as atualizações mais recentes, destacam-se:
- Limitação do acesso a celulares: Após anos de críticas sobre a exigência de “extração total de dados” dos aparelhos das vítimas (que expunha toda a vida íntima das mulheres), novas normas agora restringem a busca policial apenas a informações estritamente relevantes para o caso.
- Modelo “Suspeito-Primeiro”: Uma mudança na abordagem investigativa que instrui os detetives a focar no comportamento do suposto agressor e em seu histórico, em vez de buscar falhas de memória ou comportamento na vítima.
Luta por reparação
Embora Ruth tenha limpado seu nome, as cicatrizes do processo permanecem. “Entrei na delegacia buscando proteção e saí algemada”, relatou ela a veículos locais após o veredito. Grupos de apoio a vítimas de estupro no Reino Unido agora utilizam o caso de Ruth como um símbolo da necessidade de reformas urgentes, argumentando que o medo de ser acusada de “falsa denúncia” impede que milhares de mulheres busquem justiça.
Especialistas jurídicos alertam que, apesar da vitória de Ruth, a taxa de condenação por estupro no país permanece alarmantemente baixa, e o sistema ainda carece de sensibilidade para lidar com o trauma psicológico das vítimas. O governo britânico prometeu uma revisão completa nos protocolos de denúncias falsas para garantir que sobreviventes reais nunca mais acabem no banco dos réus.




