O ex-governador e ex-senador Roberto Requião voltou a subir o tom contra o que define como a “mercantilização desenfreada” do ensino médico no Brasil. Em declarações recentes, Requião disparou um alerta grave: o problema superou a barreira acadêmica e tornou-se uma ameaça direta à integridade física dos cidadãos. “Não é só faculdade ruim, é a vida do povo brasileiro em risco”, afirmou, ecoando uma preocupação que ganha força com os dados alarmantes divulgados nesta semana pelo Ministério da Educação (MEC).
A denúncia de Requião ganha contornos dramáticos diante dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) de 2025, revelados na última segunda-feira (19). O balanço aponta que cerca de 13 mil recém-formados em medicina não atingiram o nível de proficiência mínima para exercer a profissão. O cenário é de uma “fábrica de diplomas” que, segundo especialistas, prioriza o lucro de conglomerados educacionais em detrimento da qualidade técnica.
O “apagão” da competência
De acordo com o MEC, aproximadamente 30% dos cursos de medicina avaliados tiveram desempenho insatisfatório (notas 1 e 2). O impacto dessa realidade já começou a ser sentido nos conselhos profissionais. O Conselho Federal de Medicina (CFM) anunciou que pretende barrar a concessão de registro profissional (CRM) para esses 13 mil egressos reprovados no exame nacional.
O presidente do CFM, José Hiran Gallo, classificou como “tenebroso” permitir que profissionais sem a devida qualificação realizem atendimentos. A autarquia defende agora a implementação da chamada “OAB da Medicina”, um exame de proficiência obrigatório para que o médico possa atuar, desvinculado apenas da conclusão acadêmica.
As novidades no front jurídico e educacional
Para tentar frear a expansão desordenada que Requião denuncia, o cenário em janeiro de 2026 apresenta medidas severas:
- Punições do MEC: O Ministério anunciou que 99 cursos de medicina sofrerão sanções imediatas, que incluem a suspensão do ingresso de novos alunos, o corte de vagas e o impedimento de participação em programas como o Fies e o Prouni.
- Decisões do STF: O Supremo Tribunal Federal (STF) mantém o entendimento de que novos cursos só devem ser abertos mediante chamamento público, visando áreas com real necessidade social, combatendo a concentração de faculdades privadas em grandes centros que buscam apenas a alta rentabilidade das mensalidades.
- Crise das Municipais: Os dados do Enamed revelaram que as instituições municipais e privadas com fins lucrativos detêm os piores índices. Enquanto universidades federais mantêm altos padrões, as faculdades que operam sob a lógica de mercado apresentam as maiores taxas de reprovação.
A vida em jogo
A crítica de Requião ressoa em um momento de judicialização extrema. Enquanto instituições de ensino tentam garantir na justiça a manutenção de vagas e mensalidades, as entidades médicas alertam para o aumento exponencial de processos por erro médico. “Estamos tratando a saúde como mercadoria de prateleira”, reforça o político.
O debate agora se desloca para o Congresso Nacional, onde o Projeto de Lei 2294/2024, que institui o exame de proficiência, aguarda votação. O objetivo é criar um filtro que impeça que a “mercantilização” denunciada por Requião resulte em tragédias evitáveis nos hospitais e postos de saúde de todo o país.




