A nova grade curricular para o Ensino Médio paranaense reduz carga horária de disciplinas fundamentais como Filosofia e Sociologia, privilegia áreas técnicas e financeiras e gera alerta de subemprego docente para o próximo ano letivo.
CURITIBA – O cenário educacional do Paraná para o ano letivo de 2026 desenha-se sob forte tensão entre o governo estadual e os profissionais da educação. A Secretaria de Estado da Educação (SEED-PR) consolidou a implementação do chamado “Novíssimo Ensino Médio” (NEM), baseado na Lei Federal nº 14.945/2024, mas a aplicação prática no estado tem sido alvo de duras críticas por parte de coletivos de professores e sindicatos.
A principal denúncia recai sobre o rebaixamento curricular e a fragmentação do conhecimento. Enquanto a nova legislação federal previa a recomposição da carga horária da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de 1800 para 2400 horas, a SEED-PR é acusada de manobrar a grade para manter uma lógica neoliberal, priorizando disciplinas como “Educação Financeira” e “Projeto de Vida” em detrimento das Ciências Humanas e Naturais.
O abismo das Humanas e o risco de subemprego
De acordo com o novo desenho curricular, os estudantes dos 1º e 2º anos em 2026 enfrentarão os Itinerários Formativos de Aprofundamento (IFAs). Contudo, disciplinas como Sociologia e Filosofia foram drasticamente afetadas. Em 2026, a Filosofia será ofertada apenas no 2º ano, enquanto a Sociologia — que já sofria com reduções — terá sua carga horária limitada a uma série, com disciplinas em cessação nos 3º anos.
”Nenhum professor de Sociologia e Filosofia conseguirá fechar suas 40 horas”, alertam membros do Coletivo Humanidades. O impacto não atinge apenas as humanas; professores de Química e Biologia também enfrentam o espectro do subemprego. Como a nova grade será aplicada gradualmente aos 1º e 2º anos, e o 3º ano manterá a “grade velha” (onde essas disciplinas têm baixa carga), muitos docentes terão aulas apenas em uma série em 2026.
”Inovação” sob suspeita: IA e Educação Financeira
A SEED-PR incluiu na matriz a nova disciplina “Educação Digital e Computação: Programação e IA”. Embora o Conselho Estadual de Educação (CEE) oriente a oferta como disciplina, críticos apontam que a BNCC permitiria a abordagem desses temas de forma transversal. O mesmo ocorre com a “Educação Financeira”, que teve um aumento expressivo de carga horária (chegando a 6 aulas em algumas matrizes), sendo vista por sindicatos como uma decisão política de “adestramento” voltada ao mercado financeiro, ignorando a formação científica ampla.
Privatização e Lógica de Compadrio
Outro ponto crítico levantado é a gestão das escolas cívico-militares e das unidades privatizadas (Parceiro da Escola). Nestes modelos, a distribuição de aulas extras muitas vezes foge ao princípio da impessoalidade, priorizando contratações via PSS ou indicações diretas, o que prejudica os professores do Quadro Próprio do Magistério (QPM) que buscam completar sua jornada de trabalho.
Mobilização da Categoria
Em resposta ao que chamam de “ataque ao currículo”, a APP-Sindicato já aprovou um calendário de lutas para o início de 2026. Entre as principais ações estão:
- 02/02: Ato na abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa (ALEP).
- 03 e 04/02: Dias Pedagógicos voltados ao debate sobre a precarização.
- 07/02: Assembleia Estadual Extraordinária para decidir os rumos da mobilização e possíveis paralisações.
Para os educadores, o “Novíssimo NEM” no Paraná não representa um avanço pedagógico, mas uma estratégia de “mudar para não mudar”, mantendo a estrutura de 2017 que prioriza índices estatísticos (IDEB) e plataformas digitais em vez da qualidade do ensino presencial e da valorização docente.
Fontes Consultadas: SEED-PR (Instruções Normativas 001/2026 e 015/2025), APP-Sindicato, Coletivo Humanidades e Conselho Estadual de Educação do Paraná.




