A plataforma de mercados de previsão Polymarket está no centro de uma tempestade diplomática e financeira após se recusar a pagar milhões de dólares em apostas relacionadas a uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela. O imbróglio começou após a operação relâmpago que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no último fim de semana.
O conflito de definições
A polêmica gira em torno da definição técnica de “invasão”. Enquanto o mundo acompanhava as imagens da incursão militar e a subsequente tomada de controle de infraestruturas estratégicas por forças norte-americanas, a Polymarket sustenta que a ação não cumpriu os critérios estabelecidos em seus contratos de aposta.
Para a plataforma, a missão de “extração” de Maduro não caracteriza uma “ofensiva militar destinada a estabelecer o controle territorial permanente”, termo que constava nas regras das apostas binárias (sim/não). Estima-se que mais de US$ 10,5 milhões (cerca de R$ 58 milhões) estejam retidos devido a essa interpretação.
Revolta dos usuários e suspeitas de “insider trading”
A decisão gerou uma onda de fúria entre os investidores, que classificaram a atitude como arbitrária. “Que uma incursão militar, o sequestro de um chefe de estado e a tomada de controle de um país não sejam classificados como invasão é simplesmente absurdo”, protestou um dos grandes apostadores em fóruns especializados.
Além do calote técnico, o caso ganhou contornos políticos:
- Conexões com a família Trump: Donald Trump Jr., filho do presidente eleito dos EUA, possui participação na Polymarket e atua como conselheiro da empresa, o que alimentou teorias de conflito de interesses.
- Lucros suspeitos: Um apostador anônimo, com uma conta criada recentemente, lucrou cerca de US$ 410 mil ao prever a queda de Maduro horas antes do anúncio oficial de Donald Trump no Truth Social. O congressista democrata Ritchie Torres já anunciou planos de introduzir uma lei para impedir que funcionários do governo e pessoas ligadas ao poder operem nesses mercados com informações privilegiadas.
O cenário na Venezuela
Enquanto a disputa financeira corre nos tribunais digitais, o cenário em Caracas é de incerteza. A operação americana, que teria deixado cerca de 80 mortos segundo relatos locais, é descrita pelos EUA não como uma guerra, mas como uma missão de “restauração da ordem”. A oposição venezuelana e os aliados de Trump defendem que não há um “agente externo” governando o país, mas sim uma transição, argumento que a Polymarket usa para validar sua recusa em pagar os contratos de “invasão”.
O caso reforça as críticas à falta de regulação em plataformas de finanças descentralizadas (DeFi). Nos EUA, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), que regula o setor, ainda não se manifestou oficialmente sobre se irá intervir na disputa da Polymarket.







