Uso de Ozempic e canetas emagrecedoras acende alerta entre dentistas devido a impactos na saúde bucal, hálito e dentes

​O avanço e a popularização de medicamentos injetáveis à base de agonistas do receptor GLP-1 — como a semaglutida (presente no Ozempic e no Wegovy) e a tirzepatida (no Mounjaro) — revolucionaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Contudo, cirurgiões-dentistas e médicos têm observado um efeito colateral indireto, mas cada vez mais recorrente nos consultórios: alterações significativas na saúde da boca, popularmente associadas a termos como “boca de Ozempic” ou “bafo de Ozempic”.

​Embora os problemas bucais não costumem figurar como efeitos colaterais diretos nas bulas primárias, o mecanismo de ação desses remédios desencadeia adaptações gastrointestinais e sistêmicas que refletem de forma direta no ambiente oral, afetando desde a quantidade de saliva produzida até o esmalte dos dentes.

​Boca seca (xerostomia): a raiz da cascata de problemas

​O sintoma bucal mais relatado por pacientes em uso de canetas emagrecedoras é a xerostomia, ou sensação de boca seca. A redução na produção de saliva ocorre por uma combinação de fatores:

  • Efeito no sistema nervoso e menor ingestão hídrica: com a redução acentuada do apetite e da sede, muitos usuários deixam de ingerir a quantidade diária adequada de água.
  • Ação nos receptores e mucosas: a adaptação metabólica diminui a taxa de salivação contínua.

​A saliva desempenha um papel fundamental na preservação da saúde oral. Ela atua como um tampão natural para neutralizar ácidos, auxilia no equilíbrio do pH, remove restos de alimentos e impede a proliferação desenfreada de bactérias. Com a salivação reduzida, a boca perde sua principal barreira protetora, abrindo espaço para inflamações gengivais, cáries de evolução rápida e episódios de dor ou ardência.

​Por que o hálito muda?

​A alteração do hálito (halitose) durante o tratamento com GLP-1 possui origens bem definidas pela literatura odontológica e gastroenterológica:

  1. Esvaziamento gástrico retardado: os medicamentos lentificam o processo de digestão no estômago. A permanência prolongada dos alimentos no trato digestivo favorece processos de fermentação, gerando compostos sulfurosos voláteis que sobem pelo esôfago e geram um odor forte e persistente.
  2. Proliferação bacteriana: a falta de oxigenação e de fluxo salivar na cavidade oral cria um ambiente propício para o acúmulo de saburra lingual (camada esbranquiçada no fundo da língua), acentuando o mau hálito.
  3. Dietas restritivas e jejum prolongado: a drástica redução no consumo de carboidratos ou longos períodos sem comer podem induzir o estado de cetose no organismo, o que também confere um hálito de aspecto adocicado ou cetônico.

​Erosão do esmalte e sensibilidade dentária

​Outro ponto de grande preocupação entre especialistas é o aumento do risco de erosão ácida do esmalte dentário. Náuseas, episódios de refluxo gastroesofágico e vômitos são efeitos colaterais gastrointestinais frequentes no início do uso do medicamento ou durante o aumento de doses.

​Quando o conteúdo ácido do estômago entra em contato com os dentes, ocorre a desmineralização do esmalte. Com a repetição desses episódios, os dentes perdem sua camada protetora externa, tornando-se mais finos, amarelados e extremamente sensíveis a variações térmicas (alimentos frios ou quentes) e doces. Caso não haja intervenção, a perda de estrutura dental pode exigir restaurações complexas ou tratamentos de canal.

​Mudanças no paladar e inflamação gengival

​Alguns pacientes relatam ainda disgeusia — uma alteração no paladar descrita frequentemente como um gosto metálico ou amargo na boca. Essa sensação interfere na apreciação dos alimentos e costuma ser agravada pela xerostomia.

​A gengiva também pode dar sinais de sofrimento: a falta de lubrificação salivar e a alteração da microbiota bucal facilitam o acúmulo de placa bacteriana, favorecendo o aparecimento da gengivite (gengiva avermelhada e que sangra facilmente ao usar fio dental).

​Como prevenir e mitigar os efeitos bucais

​Especialistas ressaltam que o surgimento desses desconfortos não significa necessariamente que o paciente precise interromper o tratamento médico, mas exige cuidados preventivos específicos e acompanhamento odontológico contínuo:

  • Ingestão constante de água: mesmo na ausência de sede, beber água em pequenos goles ao longo de todo o dia é fundamental para manter a umidade bucal.
  • Cuidado ao escovar os dentes após refluxo ou vômito: não se deve escovar os dentes imediatamente após episódios de refluxo ácido ou vômito, pois a fricção da escova sobre o esmalte desmineralizado acelera o desgaste. O recomendado é fazer um bochecho com água pura ou com solução contendo bicarbonato de sódio e aguardar cerca de 30 minutos antes da escovação.
  • Higiene reforçada da língua: o uso diário de limpadores ou raspadores linguais ajuda a remover a saburra e reduz o mau hálito.
  • Uso de saliva artificial e enxaguantes sem álcool: produtos específicos para boca seca ajudam a manter a mucosa lubrificada e protegida.
  • Acompanhamento com o cirurgião-dentista: informar o profissional sobre o uso de canetas de semaglutida ou tirzepatida permite a aplicação preventiva de flúor e a prescrição de rotinas personalizadas para proteger o esmalte e as gengivas.

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