VENEZUELA e a herança geológica: os desafios da maior reserva de petróleo do mundo frente ao mercado global em 2026

A Venezuela detém, de forma incontestável, o título de maior detentora de reservas provadas de petróleo do planeta, superando gigantes como a Arábia Saudita e o Canadá. Segundo dados atualizados de 2024 e 2025, o país concentra cerca de 303 bilhões de barris, o que representa aproximadamente 17% de todo o petróleo disponível no mundo. No entanto, a mesma “combinação rara” que garantiu essa abundância geológica é hoje o maior entrave técnico e econômico para a sua exploração.

​A Geologia do Abismo: Por que o petróleo é tão difícil?

​A formação dessas reservas está intrinsecamente ligada à divisão geográfica do país. Separada pela cordilheira dos Andes, a Venezuela possui bacias planas extensas, como a Bacia do Orinoco, onde a interação entre as montanhas e as planícies permitiu o acúmulo de hidrocarbonetos ao longo de milhões de anos.

​O problema reside na natureza desse petróleo: ele é majoritariamente extrapesado e ácido.

  • Viscosidade Extrema: O petróleo venezuelano tem a consistência de melaço ou até de asfalto frio. Ao contrário do petróleo leve (como o da Arábia Saudita ou do Pré-sal brasileiro), que flui facilmente, o venezuelano precisa ser aquecido ou misturado a diluentes para ser transportado por oleodutos.
  • Alto Teor de Enxofre: Ser um petróleo “azedo” (ácido) significa que ele exige processos de refino muito mais complexos e caros para remover impurezas e atender aos padrões ambientais globais de combustíveis como a gasolina e o diesel.

​O Cenário em 2026: Reservas Gigantes, Produção Travada

​Apesar do potencial geológico, a realidade operacional da estatal PDVSA e do governo venezuelano é de declínio. Em janeiro de 2026, a produção nacional está estabilizada em torno de 1 milhão de barris por dia — uma fração mínima da capacidade teórica e muito abaixo dos 3,5 milhões produzidos no passado.

​Especialistas do setor apontam que a Venezuela hoje responde por menos de 1% da oferta global. A infraestrutura, descrita em reportagens recentes como “sucata e decadência”, sofreu com décadas de falta de investimento, corrupção e o peso das sanções internacionais.

​Geopolítica e a Resistência das Gigantes

​Com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, surgiram planos para revitalizar a indústria venezuelana sob comando de empresas americanas. Contudo, o mercado sinaliza ceticismo. Enquanto a Chevron continua sendo a única grande americana operando no país (com foco na segurança de ativos e produção limitada), outras gigantes como a ExxonMobil resistem ao retorno, classificando o país como “não investível” devido à insegurança jurídica e aos riscos de confisco.

​Além disso, o custo para modernizar o parque de refino venezuelano é estimado em bilhões de dólares, um investimento difícil de justificar em um momento de transição energética, onde o mercado busca petróleos “mais limpos” e de refino mais simples.

​Conclusão

​A combinação rara que deu à Venezuela suas reservas é um triunfo da natureza, mas um pesadelo logístico. Enquanto o país possuir as maiores reservas, sua relevância será ditada não pelo que está no subsolo, mas pela capacidade política e técnica de transformar esse petróleo pesado em um produto viável para o mundo — um desafio que, em 2026, parece longe de ser resolvido.

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