As agressivas políticas pró-natalidade implementadas pelo governo do primeiro-ministro Viktor Orbán na Hungria — que incluíram a promessa de vultosos subsídios equivalentes a até R$ 170 mil para casais com dois filhos, além de isenções fiscais vitalícias para mães de famílias numerosas — registraram um fôlego inicial, mas acabaram por demonstrar limitações severas. Após um pico de crescimento na década passada, os indicadores demográficos húngaros despencaram de forma acentuada, acendendo o alerta global sobre a real eficácia de incentivos puramente financeiros para conter o inverno demográfico.
Quando Orbán assumiu o poder em 2010, a Hungria registrava uma das menores taxas de fertilidade da Europa. Em contraposição às diretrizes da Europa Ocidental, que recorrem à imigração para recompor a força de trabalho, o partido governante Fidesz optou por uma abordagem nacionalista focada em subsidiar as famílias locais. A estratégia surtiu efeito temporário: a taxa de fertilidade saltou de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020.
Contudo, os dados mais recentes de 2024 a 2026 apontam para um cenário crítico. Os nascimentos no país afundaram para mínimas históricas, com a taxa de fertilidade recuando para patamares entre 1,31 e 1,38 — aproximando-se novamente dos níveis de quando as medidas foram lançadas. Especialistas em demografia apontam que as políticas húngaras funcionaram mais como um mecanismo de antecipação: casais que já planejavam ter filhos decidiram tê-los mais cedo para aproveitar os bônus em dinheiro, mas o volume total de crianças por mulher não se sustentou a longo prazo.
Diante do colapso do modelo atual, Viktor Orbán buscou contra-atacar propondo a ampliação da isenção vitalícia de imposto de renda também para mães de dois filhos (antes restrito a quem tinha quatro ou mais). Ainda assim, analistas apontam que fatores como a inflação recorde, o elevado custo de vida e o engessamento cultural dos papéis de gênero reduzem o apelo dos novos auxílios estatais. O exemplo da vizinha República Tcheca, que observou flutuações semelhantes no mesmo período sem ter adotado pacotes financeiros tão agressivos, fortalece a tese de que a taxa de natalidade responde a dinâmicas econômicas e culturais mais amplas do que meros repasses em dinheiro. Para outras nações que avaliam propostas semelhantes, a lição da Hungria reforça que o auxílio pecuniário resolve a conjuntura momentânea de algumas famílias, mas falha em reverter a tendência global de declínio populacional.
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