MST e órgãos federais debatem Reforma Agrária e violência no campo em Curitiba

Curitiba – Em uma mobilização que marca os 30 anos da memória do Massacre de Eldorado dos Carajás, cerca de 300 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupam as sedes do Incra e da Conab, na capital paranaense, nesta quarta e quinta-feira (15 e 16 de abril de 2026). A Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária deste ano ocorre em um cenário de pressão intensificada sobre o governo federal para o cumprimento de metas de assentamento e o combate ao uso de agrotóxicos como ferramenta de coerção em conflitos fundiários.
A pauta paranaense é urgente: o movimento exige a regularização de mais de 5 mil famílias acampadas no estado, muitas delas vivendo em comunidades consolidadas há décadas, mas que ainda carecem de segurança jurídica e infraestrutura básica.

Diálogo e reivindicações estruturais

As mesas de negociação contaram com a presença de figuras-chave como Nilton Bezerra Guedes, superintendente do Incra-PR, e Valmor Bordin, da Conab. Entre as principais demandas apresentadas pela coordenação do MST, destacam-se:

  • Assentamento imediato: Meta de 100 mil famílias no país, com prioridade para as 5 mil em espera no Paraná.
  • Infraestrutura e Crédito: Acesso a água potável, energia elétrica, estradas e linhas de crédito para agroecologia.
  • Educação e Moradia: Ampliação do Pronera (educação no campo) e programas de habitação rural.
  • Soberania Alimentar: Fortalecimento das 25 cooperativas e 100 agroindústrias da Reforma Agrária no PR, que hoje já produzem desde grãos até laticínios certificados.
    Bruna Zimpel, da coordenação nacional do MST, reforçou que o objetivo é transformar acampamentos históricos em territórios produtivos legalizados. “São comunidades com vínculos comunitários e produção estabelecida que esperam o reconhecimento do Estado”, afirmou.

O agravamento dos conflitos: O “uso do veneno” como arma

Um dos pontos mais críticos discutidos durante a jornada foi o recente episódio na comunidade Benedito Gomes, em Perobal (PR). Relatos indicam que, no final de março, famílias foram vítimas de intoxicação proposital por agrotóxicos. A pulverização, realizada por um fazendeiro que ocupa ilegalmente terras públicas da União (Fazenda Tiburi), atingiu moradias e plantações coletivas.

“Eu tive dor de cabeça durante a noite e, na madrugada, comecei com episódios de vômito. Procurei atendimento por estar gestante e temer pelo bebê”, relatou Camila Verbes, moradora da comunidade.

O Ministério Público, representado por Stheffanne Rodrigues, acompanhou as discussões, sublinhando que a preservação da memória de Carajás é fundamental para evitar que novas violações de direitos humanos se normalizem no campo.

Contexto Nacional: Abril Vermelho 2026

A mobilização em Curitiba ecoa ações em todo o Brasil. Segundo dados recentes do Relatório de Conflitos no Campo da CPT, embora tenha havido um esforço de retomada de políticas públicas nos últimos dois anos, a lentidão na obtenção de terras pelo Incra tem gerado insatisfação na base do movimento.
No Paraná, a força do MST reside na sua capacidade agroindustrial. Atualmente, o estado é um dos polos de produção orgânica do movimento, abastecendo programas de merenda escolar e feiras urbanas. A jornada encerra-se nesta quinta-feira (16) com uma assembleia de planejamento, enquanto o governo federal avalia as margens orçamentárias para atender aos pedidos de infraestrutura e crédito rural para a safra 2026/2027.

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