Maior terremoto da história do Brasil em Mato Grosso completa sete décadas e acende alerta de especialistas para novos riscos na região

O maior abalo sísmico já documentado em território brasileiro, ocorrido no estado de Mato Grosso no ano de 1955, voltou ao centro dos debates científicos e públicos. Registrado originalmente na madrugada de 31 de janeiro daquele ano, na região da Serra do Tombador — área que atualmente pertence ao município de Juara —, o tremor de terra atingiu uma magnitude estimada em 6,2 graus. O interesse histórico e científico pelo evento foi reacendido devido a tremores recentes de baixa intensidade registrados em outros pontos do país, como no Tocantins e no litoral do Rio de Janeiro.

​Na época do ocorrido, o evento quase passou despercebido pelos órgãos oficiais por ter o epicentro localizado em uma região completamente isolada e desabitada. Apesar do isolamento do epicentro, o reflexo das ondas sísmicas pôde ser sentido a cerca de 380 quilômetros de distância, na capital Cuiabá, onde moradores relataram oscilações em objetos, mas sem registro de vítimas ou danos materiais graves.

​O fenômeno por trás do abalo intraplaca

​Diferente dos terremotos severos que assolam países vizinhos na América Latina, como o Chile ou o Peru, o abalo de Mato Grosso não foi gerado pelo choque direto entre duas placas tectônicas distintas. De acordo com geólogos e coordenadores científicos de instituições como a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno foi classificado como um terremoto intraplaca.

O que é um tremor intraplaca?

Trata-se de uma liberação de energia provocada por acomodações e pressões internas na própria Placa Sul-Americana, que se propaga por meio de falhas geológicas antigas presentes na crosta terrestre.

​Outro fator determinante para a intensidade percebida foi a profundidade do foco do tremor. Estimado a pouco mais de 10 quilômetros da superfície, o terremoto de 1955 é considerado raso pelos padrões sismológicos. Quanto mais próximo da superfície ocorre a falha, maior tende a ser o impacto destrutivo das ondas geradas no solo habitado. O abalo alcançou a intensidade VII na Escala Mercalli Modificada, classificação considerada forte o suficiente para causar rachaduras estruturais severas em edificações comuns.

​Evolução urbana e o aumento da vulnerabilidade regional

​Especialistas alertam que o cenário de segurança na região norte de Mato Grosso mudou drasticamente nos últimos 70 anos. Áreas que antes eram compostas por matas virgens e vazios demográficos hoje abrigam municípios populosos, forte atividade agropecuária e infraestrutura urbana consolidada.

​Municípios vizinhos ao epicentro histórico, como Porto dos Gaúchos (localizado a cerca de 110 quilômetros da Serra do Tombador), registram atividade sísmica recorrente desde o fim da década de 1950. A cidade já sofreu abalos de magnitude 5,0 nos anos de 1998 e 2005, além de tremores menores documentados em anos mais recentes pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP).

​Análises sismológicas contemporâneas apontam que, caso um tremor com a mesma magnitude de 6,2 graus ocorresse novamente na mesma região nos dias de hoje, os impactos socioeconômicos seriam substanciais. Em um raio de até 50 quilômetros a partir do epicentro, haveria riscos reais de:

  • ​Rachaduras estruturais em residências e prédios comerciais;
  • ​Queda de fiações elétricas e interrupção no fornecimento de energia e comunicação;
  • ​Danos severos em galpões de armazenamento e indústrias locais;
  • ​Bloqueio de rodovias por deslizamentos de terra pontuais.

​O monitoramento contínuo realizado pela Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) segue acompanhando a Zona Sísmica de Porto dos Gaúchos, considerada atualmente uma das áreas de maior atenção e relevância para o estudo da sismologia no interior do continente sul-americano.

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