Dez anos após o início do processo que culminou na queda de Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o governo Lula consolidam uma ofensiva de “revisionismo histórico”, classificando o impeachment como um marco inicial da erosão democrática que teria levado aos ataques de 2023.
O Fator 10 Anos: De 2016 a 2026
Neste mês de abril de 2026, a política brasileira revisita um de seus capítulos mais divisivos. O PT e seus aliados não apenas mantêm a tese de que o impeachment de 2016 foi um “golpe parlamentar”, como agora utilizam o distanciamento histórico para amarrar os eventos daquela época às crises institucionais recentes.
Para a cúpula petista, a destituição de Dilma Rousseff não foi um ato isolado de fiscalização orçamentária, mas uma “ruptura deliberada” que fragilizou o respeito ao voto popular. A narrativa oficial sustenta que, ao remover uma presidente eleita sem a comprovação inequívoca de crime de responsabilidade — tese reforçada pelo arquivamento judicial do caso das “pedaladas fiscais” pelo TRF-1 em 2023 —, abriu-se um precedente para o questionamento radical das instituições.
A Conexão com o 8 de Janeiro
O ponto central da estratégia discursiva em 2026 é a ligação direta entre o impeachment e as invasões de 8 de janeiro de 2023. Segundo lideranças governistas, o processo de 2016 teria sido o “ovo da serpente”, alimentando um sentimento de que resultados eleitorais poderiam ser revertidos por vias não convencionais.
- Desequilíbrio de Poderes: Aliados de Dilma argumentam que o Legislativo, sob a batuta de Eduardo Cunha na época, sequestrou a governabilidade, criando um desequilíbrio que só começou a ser mitigado na atual legislatura.
- Ascensão da Extrema-Direita: O presidente Lula tem reiterado em discursos recentes que o “golpe” contra Dilma foi o catalisador para a ascensão do bolsonarismo, transformando uma crise política em uma crise de sobrevivência democrática.
Disputa de Memória e Repercussão
Enquanto o PT promove atos de “desagravo” à ex-presidente — que hoje preside o Banco dos Brics —, a oposição e juristas que apoiaram o impedimento rebatem a narrativa. Para este grupo, o processo seguiu estritamente o rito constitucional sob supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF), e classificá-lo como golpe seria uma tentativa de “reescrever a história” para apagar a crise econômica e política da gestão petista.
“Não se cassa o mandato de uma autoridade porque ela não se relaciona bem com o Congresso. Tem que ter crime, e ela não cometeu. Até hoje pagamos o preço, veja o 8 de janeiro”, afirmou o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em balanço recente sobre a década do processo.
Cronologia da Crise: 10 Anos em Perspectiva
Ano Evento Chave Impacto Narrativo 2016 Votação do Impeachment PT oficializa o termo “Golpe” em notas partidárias. 2018 Prisão de Lula Interpretada pelo partido como a segunda etapa da “ruptura”. 2023 Decisão do TRF-1 Justiça arquiva ação de improbidade das pedaladas; governo usa como prova de inocência. 2023 8 de Janeiro Invasões em Brasília são ligadas pelo governo ao “clima de desrespeito” iniciado em 2016. 2026 10 Anos do Processo Consolidação do revisionismo histórico como plataforma política. O cenário atual mostra que, longe de ser uma ferida cicatrizada, o impeachment de Dilma Rousseff permanece como o principal divisor de águas na retórica política brasileira, definindo como cada lado enxerga a legitimidade das instituições dez anos depois.




