IA reduz empregabilidade e renda de jovens no Brasil, aponta FGV

O avanço da inteligência artificial (IA) já deixou de ser uma promessa de futuro para se tornar um fator determinante no mercado de trabalho brasileiro atual, especialmente para quem está começando. Um estudo inédito do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) revela que jovens entre 18 e 29 anos são os mais impactados negativamente pela automação e pelas ferramentas de IA generativa.

O impacto em números: jovens no alvo da tecnologia

Segundo o levantamento, trabalhadores na faixa etária de 18 a 29 anos que ocupam funções com alta exposição à tecnologia apresentam uma probabilidade 5% menor de estarem empregados em comparação com jovens em funções menos automatizáveis.
Além da dificuldade de inserção, o estudo aponta uma pressão negativa sobre a remuneração:

  • Redução salarial: A renda dos jovens mais expostos à IA tende a ser menor do que a de seus pares em setores menos tecnológicos.
  • Estagnação de carreira: Funções de entrada, que antes serviam como “porta de entrada” e aprendizado, estão sendo rapidamente substituídas por sistemas automatizados.

Trabalhadores experientes seguem resilientes

Diferente do cenário observado entre os novatos, o pesquisador do FGV Ibre, Fernando de Holanda Barbosa Filho, destaca que o impacto sobre trabalhadores mais velhos e experientes é praticamente nulo ou até positivo em alguns casos.
A explicação reside no tipo de tarefa desempenhada. Enquanto o jovem muitas vezes executa tarefas operacionais e de suporte — facilmente replicáveis por algoritmos —, o trabalhador sênior utiliza a IA como uma ferramenta de complementaridade. Para este grupo, a tecnologia aumenta a produtividade em vez de substituir a mão de obra.

O desafio da requalificação

O cenário acende um alerta para as políticas públicas e para o sistema educacional brasileiro. A rápida adoção da IA está criando um “vão” no mercado de trabalho:

  1. Barreira de entrada: Menos vagas de nível júnior disponíveis.
  2. Exigência de novas competências: Necessidade de domínio de ferramentas digitais antes mesmo da primeira contratação.
  3. Desigualdade: Jovens com menor acesso à educação de qualidade ficam ainda mais vulneráveis à substituição tecnológica.

“A tecnologia está mudando a natureza do trabalho de entrada. Se antes o jovem aprendia fazendo o básico, hoje o básico é feito pela máquina, e o mercado exige que ele já chegue com habilidades de análise e supervisão”, afirma o estudo.

O que dizem as tendências globais

A situação brasileira reflete uma preocupação global. Relatórios recentes de órgãos como o FMI e a OIT sugerem que a IA pode afetar até 40% dos empregos no mundo, mas a intensidade no Brasil é agravada pela informalidade e pela concentração de jovens em setores de serviços e comércio, áreas onde a automação de processos administrativos e de atendimento tem avançado a passos largos.
O desafio para 2026 e os anos seguintes será integrar essa massa jovem a uma economia que exige, cada vez mais, o pensamento crítico e a criatividade — habilidades que, por enquanto, a IA ainda não consegue replicar plenamente.

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