Brasil encosta nos EUA e ameaça assumir liderança global do agronegócio, diz Financial Times

​O Brasil está a um passo de alcançar um marco inédito no comércio internacional: ultrapassar os Estados Unidos e assumir o posto de maior exportador agrícola do planeta. A aproximação entre os dois gigantes do agronegócio voltou ao centro das atenções após uma ampla análise divulgada pelo jornal britânico Financial Times, destacando o encurtamento acelerado da diferença nos volumes de vendas externas entre Washington e Brasília.

​Segundo estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) do Brasil, as exportações agrícolas americanas somaram US$ 171 bilhões no ano passado. O faturamento brasileiro atingiu US$ 169 bilhões — deixando a margem a favor dos norte-americanos em apenas US$ 2 bilhões. O número contrasta fortemente com o cenário de apenas cinco anos atrás, em 2021, quando a vantagem dos EUA em relação ao Brasil era de US$ 56 bilhões.

​A trajetória de expansão brasileira manteve o ritmo acelerado: no primeiro semestre, as exportações do agronegócio do Brasil registraram um novo recorde de US$ 87 bilhões, uma alta de 6% frente ao mesmo período do ano anterior.

​O fator China e as disputas comerciais

​Para analistas de mercado, a disputa comercial deflagrada durante a gestão do presidente norte-americano Donald Trump foi um divisor de águas. O início do “tarifaço” imposto por Washington em 2018 levou Pequim a buscar alternativas e redirecionar significativamente seus pedidos de commodities agrícolas para os produtores sul-americanos.

​A guinada fica clara nos embarques de soja: dados de comércio internacional (UN Comtrade) mostram que, em 2016, Brasil e Estados Unidos dividiam o fornecimento de soja ao mercado chinês em volumes similares. Com o acirramento das tensões comerciais, a China priorizou o produto brasileiro, fazendo com que os embarques de soja do Brasil rumo a Pequim ultrapassassem a marca de 80 milhões de toneladas por ano, enquanto os norte-americanos viram sua fatia encolher substancialmente.

​Paralelamente, o Brasil conseguiu expandir sua hegemonia em mercados estratégicos. O país não apenas consolidou a liderança absoluta na exportação de carne bovina, carne de frango e soja em grão, como também tomou a liderança global dos EUA no comércio de algodão.

​Décadas de investimento e eficiência no campo

​Ainda que a guerra tarifária entre EUA e China tenha atuado como catalisador, especialistas enfatizam que a ascensão brasileira não se deve puramente a oportunidades conjunturais. Trata-se do resultado de décadas de investimento em ciência agrícola, com destaque para a atuação da Embrapa, no desenvolvimento de técnicas adaptadas ao clima tropical, na recuperação de solos e no melhoramento genético.

​Esses avanços tecnológicos permitiram que o Brasil otimizasse o uso da terra — alcançando até três safras por ano na mesma área em algumas regiões produtoras — e expandisse a produtividade sem depender exclusivamente do aumento de fronteira agrícola.

​Em contrapartida, produtores no Meio-Oeste americano enfrentam pressão sobre as margens de lucro. A American Farm Bureau Federation aponta que os agricultores dos EUA lidam com estimativas de prejuízo operacional por acre em culturas como milho, trigo, algodão e soja, pressionados pelos altos custos de insumos e cotações pressionadas internacionalmente.

​Desafios operacionais no horizonte

​Apesar de a liderança global estar ao alcance de mãos, o agronegócio brasileiro ainda enfrenta entraves estruturais importantes que podem desacelerar seu ritmo de expansão.

​O principal gargalo permanece na logística de escoamento e infraestrutura, que eleva o custo do frete no país em comparação aos concorrentes externos. Além disso, o setor enfrenta custos elevados de financiamento agrícola em decorrência dos juros altos, dependência externa de fertilizantes importados e exigências crescentes de parceiros internacionais — em especial a União Europeia — por garantias rígidas de rastreabilidade e sustentabilidade ambiental nas cadeias produtivas.


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