A confirmação de um diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na idade adulta tem se tornado um fenômeno cada vez mais frequente no Brasil. Um dos casos recentes que ilustram essa realidade é o de Luciano Gonçalves, de 41 anos, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e docente do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) desde 2014. Após perceber que certas dificuldades cotidianas se intensificaram significativamente no período pós-pandemia, o professor buscou orientação médica, dando início a uma jornada que culminaria na descoberta de sua condição neurodivergente.
O processo de receber o diagnóstico aos 41 anos envolveu uma sucessão de fases complexas, passando pela surpresa inicial, momentos de negação e, finalmente, uma profunda reconstrução de sentido sobre a sua própria história de vida, tanto no âmbito pessoal quanto no acadêmico.
O crescimento dos diagnósticos em adultos
O relato de Luciano Gonçalves reflete um cenário global e nacional. Especialistas apontam que o isolamento social e as mudanças abruptas de rotina causadas pela pandemia de Covid-19 funcionaram como um catalisador para muitos adultos passarem a notar prejuízos na comunicação social, hipersensibilidade sensorial e esgotamento mental (conhecido como autistic burnout).
Muitas pessoas que fazem parte do espectro, especialmente aquelas com menor necessidade de suporte visual ou cognitivo, conseguiram “mascarar” suas características ao longo da vida (prática conhecida como masking). No entanto, as exigências do retorno às atividades presenciais tornaram esse mecanismo de adaptação insustentável para muitos.
Barreiras e a busca por direitos
A comunidade médica e associações de apoio ao TEA destacam que a busca pelo diagnóstico na fase adulta ainda enfrenta diversos obstáculos no país, tais como:
- Alto custo: A avaliação neuropsicológica e a consulta com psiquiatras ou neurologistas especializados ainda são majoritariamente concentradas na rede privada.
- Falta de profissionais capacitados: Historicamente, a formação médica tendeu a focar o autismo como uma condição exclusivamente infantil, dificultando a identificação de sinais sutis em adultos.
- Preconceito e mitos: A ideia errônea de que uma pessoa com alto nível de escolaridade — como um professor doutor — não poderia ser autista atrasa o acesso ao suporte adequado.
Atualmente, o Brasil conta com ferramentas legais como a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012), que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, garantindo que adultos diagnosticados tenham os mesmos direitos assegurados às pessoas com deficiência, incluindo adaptações no ambiente de trabalho e atendimento prioritário. Para profissionais como Luciano, o diagnóstico não representa uma limitação, mas sim a chave para o autoconhecimento e para a garantia de ferramentas que promovam melhor qualidade de vida e inclusão no ambiente institucional.








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