França lidera seleções multiculturais na Copa 2026, mas passado mostra que Brasil também já foi o time dos filhos de imigrantes

​A Copa do Mundo de 2026 escancara um fenômeno global: a impressionante diversidade demográfica que molda as principais potências do futebol. Bilhetes de identidade e árvores genealógicas se cruzam nos vestiários. O caso mais emblemático é o da França, onde 20 dos 26 atletas convocados são filhos de imigrantes ou nasceram fora do território francês — representando expressivos 77% do elenco, com estrelas como Kylian Mbappé (raízes em Camarões e Argélia). Outras seleções europeias como Holanda (onde metade do time tem ascendência estrangeira), Alemanha e Inglaterra seguem o mesmo compasso multicultural.

​No entanto, o que muitos torcedores consideram uma exclusividade da Europa moderna já foi uma realidade marcante do futebol brasileiro. No início do século passado, a Seleção Brasileira viveu seu próprio “boom” de operários e descendentes de imigrantes, transformando o esporte de elite em uma paixão genuinamente popular.

​O caldeirão da bola: a Seleção de 1919 e as raízes paulistas

​Quando o Brasil ergueu seu primeiro troféu de relevância, o Campeonato Sul-Americano de 1919, a espinha dorsal da equipe refletia diretamente o fluxo migratório que redesenhou as indústrias nacionais, especialmente em São Paulo, onde os estrangeiros compunham cerca de 35% da população na década de 1920.

​Pelo menos cinco titulares daquela conquista histórica carregavam o DNA da imigração recente:

  • Arthur Friedenreich: Considerado a primeira grande estrela do futebol brasileiro, o atacante era filho de um engenheiro alemão com uma lavadeira negra brasileira.
  • Neco: Ídolo histórico, tinha pai português.
  • Marcellino, Barbuy e Bianco: Formavam um trio de filhos de italianos, a maior comunidade estrangeira radicada em São Paulo na época.

​Dos bairros operários aos gramados do mundo

​Diferente do cenário atual, em que os atletas brasileiros são rapidamente exportados para os milionários clubes europeus, os pioneiros do século 20 foram moldados em fábricas brasileiras e agremiações de bairro. Clubes como o Corinthians e o Palmeiras (fundado como Palestra Itália) surgiram intimamente ligados às comunidades de trabalhadores imigrantes e italianos. No Rio de Janeiro, o fenômeno se repetiu com operários fundando o Bangu e a colônia portuguesa erguendo o Vasco da Gama.

​Essa fusão entre a ética de trabalho das fábricas, a necessidade de inclusão social e as variadas culturas europeias e africanas deu ao futebol brasileiro as características de drible e criatividade que o consagraram.

​”As seleções de futebol são um reflexo da sociedade atual na qual vivemos”, apontam psicólogos e historiadores do esporte ao analisarem os elencos de 2026.

​Olhar para a atual seleção da França, da Suíça ou da Holanda e enxergar a riqueza da imigração é, de certa forma, reencontrar o espelho do próprio futebol brasileiro de cem anos atrás. O esporte que hoje movimenta bilhões continua mostrando que sua engrenagem mais forte sempre foi a diversidade.


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