A proteção das florestas brasileiras ganha um novo aliado estratégico: a união entre os saberes ancestrais dos povos originários e a precisão dos sistemas de monitoramento geoespacial. Em uma parceria oficializada recentemente, a Fundação Bunge e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) uniram forças para equipar até 40 brigadas indígenas, transformando a resposta ao fogo em áreas críticas da Amazônia e do Cerrado.
O acordo, integrado ao programa Prevfogo do Ibama, prevê a implementação de seis “salas de situação móveis” distribuídas estrategicamente pelos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Maranhão e Tocantins. Estes centros de comando são equipados com o que há de mais moderno em geoprocessamento: computadores de alta performance, monitores, sistemas de comunicação e, principalmente, drones que permitem o reconhecimento de focos de incêndio em locais onde o acesso por terra é impossível.
Prevenção que vem do alto
Diferente das táticas exclusivamente reativas, a nova abordagem foca na antecipação. Através do uso de satélites e inteligência artificial (IA), os brigadistas agora conseguem processar dados meteorológicos e de umidade do solo para prever áreas de maior vulnerabilidade antes mesmo que a primeira faísca apareça.
Em 2025, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou uma queda expressiva de cerca de 60% nos focos de queimadas em comparação ao ano anterior, reflexo de uma vigilância mais rigorosa e do fortalecimento dessas brigadas. O Prevfogo, que completou 36 anos de atuação, saltou de 1.792 brigadistas em 2022 para mais de 2.227 em 2024, sendo que a maioria (61 das 106 brigadas totais) é composta por indígenas.
Autonomia e protagonismo indígena
Para além da doação de equipamentos como notebooks e TVs, o eixo central do projeto é a capacitação. Oficinas de análise espacial permitem que os próprios indígenas gerem mapas de calor e planejem o manejo integrado do fogo (MIF), técnica que utiliza queimas controladas para evitar incêndios de grandes proporções.
”O objetivo é que os povos tradicionais sejam protagonistas na defesa de seus territórios. A tecnologia não substitui o conhecimento deles sobre a terra, ela o potencializa”, destacam representantes da parceria. Além da tecnologia de monitoramento, o Ibama reforçou o suporte logístico com o uso de sete helicópteros AW119 Koala, essenciais para o transporte rápido de equipes em terrenos de difícil acesso.
Novas fronteiras: IA e proteção territorial
As novidades para 2024 e 2025 incluem também o desenvolvimento de sistemas baseados em inteligência artificial, como o projeto Ecobrasil, que utiliza bibliotecas de código robusto para prever tragédias e combater invasões e garimpo ilegal em tempo real. Com contratos de brigadistas agora estendidos para até dois anos — e não mais apenas seis meses —, o governo e a iniciativa privada buscam garantir que a proteção das terras indígenas seja uma política contínua e tecnologicamente assistida, reduzindo drasticamente o tempo de resposta contra o avanço das chamas.




